terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Mar


A iminência de mais um fim de semana prolongado, aproxima-me do sempre almejado e jamais adiado reencontro com o Mar, ente querido ao qual devoto uma singular e dedicada paixão. Desta feita, o rendez-vous está previsto para ocorrer no litoral norte paulista, onde a calma placidez do mesmo, substitui a hipnotizante violência e arrogância salgada, do seu longínquo e inconformado congênere lusitano.

Difícil descrever a irresistível atracção pelo Mar, as horas infindas que nos dispomos a ouvir o seu rumor ou bradar, anestesiados pela sua tão particular e ritmada cadência, verdadeiro aconchego confessional e balsâmico, para a sempre atenta sensoralidade de nossa alma.

O por mim tão apreciado escritor Arturo Pérez-Reverte, produziu aquela que entendo ser a melhor definição, dessa tão voluptuosa extensão de espraiada água salgada:
"La gran ventaja del mar era que podías pasar horas mirándolo, sin pensar. Sin recordar, incluso, o haciendo que los recuerdos quedasen en la estela tan fácilmente como llegaban, cruzándose contigo sin consecuencias, igual que luces de barcos en la noche” (…) “aquello solo pasaba en el mar, porque este era cruel y egoísta como los seres humanos, y además desconocía, en su terrible simpleza, el sentido de palabras complejas como piedad, heridas o remordimientos. Quizá por eso resultaba casi analgésico. Podías reconocerte en el, o justificarte, mientras el viento, la luz, el balanceo, el rumor el agua en el casco de la embarcación, obraban el milagro de distanciar, calmándolos hasta que ya no dolían, cualquier piedad, cualquier herida y cualquier remordimiento. "
APR, La Reina del Sur

Nada poderei acrescentar.

Seguem imagens do "congênere lusitano", à semelhança daquela que serve de ilustrativo cabeçalho, ao singelo texto que antecede:


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mãe, um Feliz Aniversário!




5 de outubro de 2009,

Feriado nacional em Portugal, comemorativo da negligenciada data da implantação da República, no ido e vetusto ano de 1910.

Mas tal, para mim, nunca revelou qualquer importância, uma vez que é nesse mesmo dia do calendário gregoriano, que inevitavelmente orienta e é o cachorro guia da infalível medição temporal das nossas vidas, que hoje minha Mãe celebra o seu sexagésimo aniversário.

Não há por isso um único 5 de Outubro, que não me mova e deixe de me sensibilizar, pela simples razão do festejo aniversariante de alguém que me é tão especial e próximo, data indelevelmente associada à eternamente justa parabenização de minha Mãe, pelo intrépido decurso das suas sempre tão dignas e combativas primaveras da vida.

Não surpreendentemente, pesa-me a alma e o coração, não ter sido possível transpor a imensidão do Atlântico, vencendo assim a distância física de 9000 kms que, por ora, infelizmente nos aparta, a fim de poder estar ao seu lado, abraçando-a e beijando-a, condignamente a felicitando e agradecendo-lhe, uma e outra vez, ter tão abnegada e meritoriamente desempenhado as suas divinas funções de Mãe, criando-me em união de esforços e de amor com o meu Pai, tanto me ajudando ambos ao longo das díspares etapas da minha vida, como só os mais estóicos e dedicados progenitores, se esforçam por sempre levar a bom porto, tão difícil, incansável e indescritivelmente corajosa missão.



Mas, estou com ela em pensamento.

Como tal, algo inglório palco este, para dedicar os meus mais sentidos Parabéns à minha Mãe, que tanto Amo e para todo o sempre agradecerei, honrando-a com um lugar de perene primazia, no meu coração.

Restando-me então desejar uma Feliz comemoração dos seus jovens 60 anos,

Envolta por um meu enorme beijinho,

Ricardo



PS: Já alguém disse que “nenhuma língua é capaz de expressar a força, a beleza e a força de uma mãe”, pelo que, consciente da minha falta de talento, em procurar descrever o que as palavras dificilmente poderão abarcar e condignamente expressar, nesta sede dedico os pequenos fragmentos que se seguem:

"Homenagem às mães

Mãe, amor sincero sem exagero.
Maior que o teu amor, só o amor de Deus...
És uma árvore fecunda, que germina um novo ser.
Teus filhos, mais que frutos, são parte de você...

És capaz de doar a própria vida para salva-los.
E muito não te valorizam...
Quando crescem, de te esquecem.
São poucos, os que reconhecem...

Mas, Deus nunca lhe esquecerá.
E abençoará tudo que fizerdes aos seus...
Peço ao Pai Criador que abençoe você.
Um filho precisa ver o risco que é ser mãe...
Tudo é cirurgia, mas ela aceita com alegria.
O filho que vai nascer...

Obrigado é muito pouco, presente não é tudo.
Mas, o reconhecimento, isso! Sim, é pra valer...
Meus sinceros agradecimentos por este momento.
Maio, mês referente às mães, embora é bom lembrar...
Dia das mães, que alegria é todo dia."

J. Bernardo

*


"Minha mãe foi a mulher mais bela que jamais conheci. Todo o que sou, se o devo a minha mãe. Atribuo todos meus sucessos nesta vida ao ensino moral, intelectual e física que recebi dela."
George Washington


"O amor de mãe é o combustível que lhe permite a um ser humano fazer o impossível."
Marion C. Garretty


"O amor de uma mãe não contempla o impossível."
Paddock


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pequeno Conto - João e os Fantasmas Paulistas de 2021



João confidenciava para si mesmo: cinco horas passaram já. Cinco horas e encontro-me EXACTAMENTE no mesmo lugar. A voz irritante que cuspia informações inúteis a partir dos altifalantes do seu carro, metalicamente informava os desgraçados automobilistas que o engarrafamento da cidade, se cifrava agora, nuns inacreditáveis e aterrorizadores 440kms de fila compacta. Não dava para crer. João encontrava-se tensamente paralisado, limitando-se a permitir que as palmas das suas mãos suadas, continuassem indolentemente a afagar as pernas dormentes, geladas e fatigadas, fixando o seu transtornado olhar no infinito, como que aguardando um sinal divino advindo do metálico e carregado céu que vinha abraçando São Paulo, no penoso decurso daquela interminável tarde. Só que, não ia inesperada e miraculosamente surgir a solução de fuga para toda aquela insanidade, da qual se sentia um involuntário e contrariado figurante. A libertação da imobilidade forçada e da prisão metálica em que se encontrava, não se lhe afigurava para breve. Nem uns míseros centímetros para a frente, nem uns míseros centímetros para trás e muito menos, uns míseros centímetros para os lados. João deixara, há muito, de esquizofrenicamente se entreter com a panóplia de instrumentos e gadgets espraiados pelo habitáculo da sua bela máquina importada. Estava cansado de esganar e torturar o suave couro do volante, uma incauta vítima ante o tenaz aperto enfurecido das bem cuidadas garras do seu proprietário. Com a cabeça rigidamente encostada no eficaz apoio, pensava no carro que o abrigava, pérola do requintado consumismo que sempre o afligira. Duzentos e quarenta listrosos cavalos, verdadeiros puros sangue italianos, indiferentemente adormecidos nas entranhas do possante motor que lhes servia de estábulo. O seu reluzente e vistoso automóvel, parecia-lhe agora um objecto fútil e sem graça, um plácido anacronismo, verdadeiro monumento à vaidade e estupidez humana. À sua vaidade e à sua estupidez.

João suspirou pesadamente. Os escurecidos vidros encontravam-se fechados, como que a ingloriamente escudá-lo das agressões externas, dos delinquentes habitantes dos automóveis inferiores que o rodeavam, da (já previsível) loucura que se abatera ao longo daquela invernosa tarde paulistana. Não faltaram avisos. Até os locutores da rádio, se cansaram de procurar esgrimir argumentos ou racionalmente explicar a tragédia agora vivida, há tanto inutilmente anunciada. A pesada e crescente oneração dos bolsos dos contribuintes, associada às draconianas restrições de acesso à fatalmente congestionada malha rodoviária da cidade, bem como a inauguração recente de dez novas estações do Metrô e outras tantas e tantas débeis medidas governativas, acabaram por não impedir a consumação do Armageddon automobilístico que se abatera, de forma inédita e consumada, sobre a vibrante megalópole na qual agora vegetava. Olhava à sua volta e já não se sentia tão orgulhoso do seu bólide. Lembrou-se dos momentos em que, com a carteira bem mais aliviada, o principiou a pavoneá-lo pelas incomplacentes ruas e ruelas desta sua cidade, realizado e orgulhoso com a sua mais recente aquisição. Agora, a história era outra. Trazer uma obra prima da engenharia automobilística, para este cenário de indescritível imobilidade, era como assistir a um filme pornográfico, motivado apenas pelo seu enredo delicado. Começavam a faltar-lhe as bem vindas idéias, para eficazmente procurar matar o cada vez mais pungente e penosamente lento decorrer do tempo. Entretinha-se agora, a raivosamente amaldiçoar a cidade que adoptara, desejando no momento, extirpar a mesma, num fabuloso passe de mágica, da face nebulosa e azulínea do cada vez mais agonizante planetinha terra. Era um caso de amor/ódio, esta sui generis relação com a babilónia viciante, sedutora e desafiadora fogueira das vaidades, que assistira, num lugar de destacada primazia, ao desfilar das suas muitas e rigorosamente planeadas vitórias profissionais. Mas, ao mesmo tempo … a sua Sampa era, a cada dia que passava, palco de uma cada vez maior e indesejada frivolidade, território estéril onde se limitava a usufruir dos expedientes provindos do seu sucesso, desacompanhados da chama e o do ardor que carimbaram o seu recente passado. Vazio, estranhamente vazio, era como de há uns tempos para cá, vinha-se paulatina e amargamente sentindo. Ou frustrado. Ou desencantado. Ainda não tinha devidamente colocado tal realidade, na mesa de operações comandada pela sua analítica e ambiciosa personalidade. Sabia que não queria abrir a caixa de Pandora e deparar-se com as vísceras livremente alimentadas no seu interior, pela sua alma desprovida e calculadamente carente de sentimentos. Só que agora, não podia acenar muitas mais cenouras defronte da sua onírica e dissoluta mente. Pouco podia fazer agora, senão concentrar-se no equacionamento de alternativas ao seu inesperado enclausuramento. No momento caótico que experimentava, nem sequer se podia atrever em pensar encontrar-se com a sua jovem amante, ludicamente paquerar as suas duas voluptuosas secretárias, ou rapidamente regressar à luxuosa cobertura que habitava, na qual, a sua bela, alcoólica e inútil esposa, provavelmente se encontrava (diferente de: o esperava). Tudo lhe parecia vão e desprovido de sentido. Mais uma vez, o repelente vazio. Restava, por ora, o fugidio conflito com o seu despovoado interior. Não podia inventar manobras de diversão, inteligentemente dedicadas aos seus cada vez mais agitados e insatisfeitos sentidos, porque o cenário dantesco em que se encontrava, não dava grande margem de manobra à sua derrotada imaginação. Não lhe restava senão defrontar-se consigo mesmo, desligando o azucrinante rádio e estoicamente permitir então, o assalto dos seus mais íntimos e desagradáveis pensamentos. Não, não agora, disse João para consigo mesmo, animal acossado, torpemente procurando afastar o glacial toque do seu negado descontentamento. Preferiu, pela enésima vez, heroicamente se esforçar em focar toda a sua atenção, na imutável realidade circundante. Realmente, apenas a coloração do céu havia mudado nesta impactante pintura, elaborada por um qualquer mestre demente residente nos infernos. De um frígido cinzento, para uma coloração mais nefasta, um negro ameaçador pacientemente se espraiando por entre as ameaçadoras nuvens, languidamente apoiadas no cada vez mais indistinto céu, qual série de pancadas de Moliére, anunciando a entrada em cena da escuridão claustrofóbica e definitiva da noite. Só que a noite, raramente caminha sozinha. Hoje, certamente, não prescindiria da companhia estimada do seu vasto exército de pesadelos e divertido cardápio de infindos medos e ansiedades. Olhou então em volta, procurando concentrar-se e vislumbrar por entre os vidros enegrecidos da sua viatura, com a débil ajuda da anedótica iluminação pública, tímidos faróis de esperança no palco de um expectável desespero total. Os restantes casulos de metal sobre rodas, serenos e cabisbaixos, estendiam-se até perder de vista, igualmente imobilizados e entorpecidos, algo indiferentes à ansiedade dos condutores e passageiros que albergavam, como que desistindo das suas funções de abnegados meios de transporte, pela impossibilidade prática do exercício das suas impostas atribuições.
Entretanto, alguns homens, mulheres e crianças, contorciam-se com a impaciência, o desespero e a raiva, ante a provável constatação, que nenhuma das invenções humanas, poderia agora ajudá-los a se baterem com o pesadelo em que habitavam.

Curiosamente, para o nosso protagonista, pareciam bem iguais à sua pessoa, todos aqueles humanos que de há umas horas para cá, o cercavam, solidária e igualmente enclausurados nos seus frios caixões de metal. Caixões? Não, o efeito da noite começava já a fazer-se sentir, com o préstimo da total irritação acumulada ao longo das centenas de minutos volvidos, tipificadas por uma total, incontornável, desarmante e categórica imobilização. Apesar de o rodearem veículos de estirpe exponencialmente inferior, os seres que neles se refugiavam, não pareciam, realmente, tão diferentes de si, igualmente assoberbados pelo cansaço e não raras vezes evidenciando uma fronte carregada pela preocupação, padecendo da agitação eminentemente interna, ditada pela imprevisibilidade do desfecho de tão trágica e inédita partitura.

Alguns deles, contudo, aparentavam-lhe se encontrarem a dormir. Olhos cerrados e corpos apoiados num qualquer pedaço da particular fisionomia automóvel. Outros, amparavam a cabeça nas mãos, transportando um olhar derrotado e tal como o seu, até há momentos, fixo num qualquer ponto do infinito vazio. Outros, não quedavam quietos, como que impulsionados por uma invejável e potente bateria, quiçá animada pela ira e/ou aflição extrema. Outros, entretinham-se com os seus celulares, teclando num qualquer exercício mensagístico ou esgotando os seus créditos e minutos, atormentando um qualquer familiar ou amigo, quiçá nas mesmas circunstâncias, quiçá refastelado no aconchego do lar. Outros…outros, sei lá, a vista não abarcava tantos mais personagens assim, diminuída que estava, pela apressada escuridão que sobre tantos companheiros de infortúnio, desdenhosamente se abatia.


Pelo menos, invejava aqueles/aquelas que falavam aos seus celulares. Mais do que provavelmente, ele, João, dispunha de uma carteira infinitamente mais generosa do que a esmagadora maioria das almas que o rodeavam. Podia ter estado a falar desde o início do calvário, até agora, continuando pelos próximos 100 anos, uma ininterrupta e incansável vozearia. Mas não tinha ninguém a quem lhe apetecesse ligar. Aos seus amigos endinheirados, não adiantaria contactar, procurando algum conforto e tentando aplacar os seus contidos e desconfortáveis temores. Para quê? Serviam apenas como compinchas gladiadores na arte da competição e do desafio, alpinistas sociais inveterados, hipócritas parceiros de jogatinas e voluntariosos figurantes em surubas povoadas por modelos escolhidas a dedo e pelo alcance da carteira de cada individualidade. Não para este momento, óbvio. Muito menos poderia ligar para as suas dedicadas amantes, que o cansariam, decorridos poucos segundos, com as suas desconexas e treinadas lengalengas, debitando, nas suas vozes sensuais, mas caracteristicamente vazias, conselhos estúpidos e insinceros, tais como calma meu amor, estava a pensar em ti luz da minha vida (principalmente no meu bem estar económico, etc), etc. Da sua mulher então, nem se poderia aventar a hipótese em pensar numa tão inesperada ligação. O quê, dar agora uma de marido atormentado, assoberbado pela culpa e facadas psicológicas cumuladas, inesperadamente pretendendo se acalmar com a voz da sua parceira na alegria e na tristeza? Não, definitivamente, não. Era tarde para lançar qualquer desajeitada tentativa, fragilmente imbuída de hipotéticos propósitos de reconciliação e reconstituição dos idos tempos de felicidade conjunta, nos quais, paradoxalmente, ambos se debatiam com as mais diversas dificuldades económicas, fruto dos gastos cuidadosamente dispendidos por ambos, numa ambiciosa parceria mútua, tendente a facilitar-lhes a abertura das portas em direcção ao tão cobiçado Olimpo social, onde já há muito, tinham sido hipócrita e predatoriamente acolhidos. Tal intento, ficaria imediatamente retido na dura fronteira da incredulidade. Além do mais, por ter sido a única mulher que verdadeiramente amara, não poderia sujeitar-se a ouvir a sua voz, mais do que provavelmente, já entorpecida pelo alcóol, pelos ansiolíticos e pelos Prozacs da vida. Não ganharia nada com isso, por que nada alteraria a essência da inexistente relação de casal. Não esquecendo que o seu mítico orgulho, o impedia de capitular ante a assunção de um falhanço pessoal, dando combustível gratuito aos seus temores, relembrando-se que a sua fulgurante caminhada para o sucesso social e profissional, jamais havia deixado prisioneiros, transformando voluntariamente a sua mulher, na segunda principal vítima do apetite voraz da sua desmedida ambição. Sim, porque homem inteligente que era e cuidadoso mediador das mais infindas variáveis desse imponderável negócio apelidado de vida, sabia desde há muito, que a principal vítima de todo esse processo de edificação pessoal, havia sido ele, o magnata João, aprisionado agora, não no seu veículo, mas pelos seus fantasmas há tanto desprezados.

Não, não, não por aí. Altivez, sempre, derrota, jamais. Contudo, ecos do seu passado pobre, pretensamente afugentado pelo então vício da leitura compulsiva, fazia-o sentir-se um soldado templário solitário, apoiado na espada ensanguentada e mirando de forma desolada, os corpos inanimados e mutilados dos seus companheiros caídos. Solidão, extrema solidão. João estava desolado e prestes a se deixar abater pelo cansaço. Como nunca lhe havia acontecido. Mais enfraquecido ainda, pela consciência de que o seu intelecto, não conseguia divisar uma solução para o inferno em que se encontrava, para além da hipótese óbvia em abandonar o seu carro e iniciar uma longa caminhada em direção a sua casa, ao escritório, ou até um outro qualquer destino. Pouco interessava. Mas não lhe apetecia. Sentia que tal não resolveria em nada a sua actual condição, os seus tormentos, subitamente mais fortes que ele, podendo tal atitude vir a ser confundida com uma fuga cobarde dos seus íntimos adversários, solidamente refugiados nas trincheiras de uma realidade que iria por ele ser vencida. Para além do mais, estava frio lá fora, fora do casulo aconchegante em que se encontrava. Aqui, para já, sentia-se mais relaxado. Inspirando o cheiro emanado pelo puro couro connolly que revestia as poltronas desportivas, sentindo nos dedos o frio toque do carbono que invadia o painel de instrumentos, deleitando-se com a delicada sintonia que o unia com esta sua máquina e paixão, brinquedo que há tantos anos já, vinha intrepidamente perseguindo.

Não ia abandonar agora o seu magnífico Alfa Romeo, companheiro de infortúnio e fiel escudeiro na batalha que se avizinhava. Estava e sentia-se tão cansado. Talvez se fechasse as pálpebras, quando acordasse, nada disto teria acontecido.
Porque não?
Verifico a trava de segurança das portas e permito-me arrastar para as profundezas escuras do sono ofegante, que me aguarda logo ao virar das esquinas do meu desalento. Indolentemente me recordo da célebre citação de Montaigne, neste meu início de travessia em direcção às amargas entranhas do desconhecido:

"Quando olhas para o abismo, o abismo também olha para ti".

São Paulo, Junho de 2021

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Fugazes habitantes do Metrô


Intróito contendo informação inútil:

Fazendo fé nas informações disponibilizadas no site da Wikipédia, a meu ver, a sempre útil enciclopédia dos preguiçosos, o Metrô de São Paulo é “considerado um dos mais modernos e limpos do mundo” e ”ocupa a 12ª posição em número de passageiros transportados por ano, 845,6 milhões”, sendo que a sua ridiculamente pequena e desfazada malha, “possui 61,3 km de extensão e 55 estações”.

Texto, propriamente dito:

Não sei porquê, mas sempre que me desloco de Metrô, em direcção a localizações, nas quais simplesmente não me atrevo a aventurar ao comando de um automóvel, por entre o caótico e intenso tráfico rodoviário da superfície, não consigo impedir o meu olhar de varrer, discreta e curiosamente, os rostos e posturas dos circundantes usuários, meus companheiros involuntários de ocasião, ao longo das minhas invariavelmente curtas incursões pelo subsolo de São Paulo.

Pois bem, daqueles 845,6 milhões de passageiros/ano, falemos então da curta amostragem com a qual me cruzo e deparo, no Metrô desta gigantesca e tentacular cidade.

Antes de tudo, contrariando-se a lógica redutoramente classificativa do povo brasileiro, que  controversamente o apelida como sendo endemicamente alegre e folgazão, o que primeiramente me assalta a vista, é a constatação empírica da ausência generalizada de sorrisos ou, em alternativa, de expressões serenamente tranqüilas e prazeirosamente sossegadas. Parece que, pelo simples fato de terem sido retirados do seu meio natural, da agitada e imprevisível superfície que habitam, agora despejados e encerrados em claustrofóbicas e atulhadas composições metálicas, que disparam cegamente por entre escuros e incógnitos corredores subterrâneos, ainda para mais, na involuntária e forçada companhia de ilustres desconhecidos, optam então por cerrar o cenho, obrigando-se ao mais confortável alheamento do cenário onde temporariamente se encontram, optando por pensar nas suas vidas e agruras, ou simplesmente em nada, evitando desta forma, o se confrontarem nas suas condições de vulneráveis enlatados e, acima de tudo, em perscrutar os rostos (e principalmente os olhares) daqueles que os asfixiam e rodeiam.

Aquilo que à superfície, é uma atitude normal dos brasileiros, a de se entreolharem e se apreciarem de forma despudorada, de forma alguma acontece aquando da obrigatória e necessária clausura nos vagões, mudando-se completamente as posturas, preferindo-se a assunção de um pacto de não agressão com os seus semelhantes, a exemplo do que acontece nos outros tantos metros sob diferentes cidades estrangeiras, a fim de não se ferirem susceptibilidades, evitando-se possíveis e incómodas defrontações, numa arena indesejadamente visitada, cujas portas para a liberdade e para o familiar, se abrem numa cadência imprevisível de uns quantos e fugazes segundos.

Penso que é por tal motivo que, de forma artificial, alguns usuários, carregam consigo livros ou simplesmente optam por fixar a sua atenção no chão ou então, mais comummente, em qualquer ponto desconhecido e distante, que parece furar o revestimento das composições.

Isto, se estiverem desacompanhados, uma vez que normalmente não despem a capa da dita normalidade de suas condutas, caso estejam na companhia familiar de amigos ou de conhecidos, tábuas de salvação para o silêncio forçado e fugidios olhares que os acometem, sempre que tiverem de enfrentar as viagens de forma solitária, na ausência da liberdade do terreno superior ou da armadura aí propiciada pelos seus bólides, ao invés dos ditames das catacumbas subterrâneas, onde lhes restam unicamente o instinto de sobrevivência, as preocupações, as fragilidades e os temores próprios de cada um, como amargas e habituais companhias.

Até porque, ainda não ouvi ninguém dizer que se passeia na solidão acompanhada do Metrô por diversão, retirando um qualquer prazer desconhecido de tal meio de transporte, mas somente e apenas, a audição da simples justificativa da necessidade, obrigação e cumprimento das actuais exigências ditadas pela sociedade contemporânea, como razões únicas, que os impelem ao enfrentamento voluntário da asfixia e curiosas particularidades de tais visitas ao porão "moderno e limpo" da cidade.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Lei Antifumo do Estado de São Paulo - Os Vampiros

Numa chuvosa noite da ida semana passada, deparei-me com um insólito capítulo da tão atual e truculenta novela, O Caminho, não das Índias, mas da Anti-fumaça Paulistana.

Tranquilamente sentado num bar da Avenida Sumaré e no cenário de uma amena conversa com bons e estimados amigos, vi-me forçado a repudiar o aconchego da mesa onde me encontrava, levantando-me rumo à solidão da calçada, a fim de satisfazer a minha omnipresente e cada vez mais censurável dependência (pelo menos, na opinião dos soldados que integram as fileiras da nova Guarda Pretoriana, sob o comando do Governador José Serra) das “mais de 4.700 substâncias tóxicas e nicotina”, presentes no tão vil e démodé cigarro.

Isto porque, me tenho como um cidadão normalmente respeitador das normas de caráter imperativo impostas à sociedade, que governam, bem ou mal, a acção desta, ainda que segundo os critérios inspiradores mais absurdos e jocosamente hipócritas.

Já na calçada, impregnada de água e inclementemente fustigada por um vento assaz gélido, de cigarro e isqueiro em punho, fui abordado por um desconhecido, agarrado a uma cigarrilha, outro enfermo então e camarada nas seqüelas oriundas do mesmo teimoso vício. O mesmo, depois de uma troca de palavras iniciais, apontou-me uma bem cuidada e quase zerada viatura, tripulada por duas sórdidas figuras, apressadamente arrancando de um estacionamento vizinho ao local onde nos esforçávamos por aplacar as exigências da doença pandêmica, que a ambos afligia.

A acreditar nas palavras do meu insuspeito companheiro de prosa, os dois homens que se abrigaram em tal viatura, não eram senão dois Ilustres fiscais do tão urgente e necessário cumprimento da meritória Lei Antifumo, uma das bandeiras mais recentes na luta pela saúde pública, travada pelos nossos abnegados e invariavelmente competentes governantes. O que lhe havia chamado a atenção, fora o fato daqueles dois paladinos, estranhamente não se encontrarem caracterizados ou adornados de qualquer elemento minimamente tradutor do exercício da função oficial, por ambos desempenhada. Corroborado por um dos seguranças do estabelecimento onde desfrutávamos happy hours paralelas, tais agentes fiscalizadores, em momento que antecedeu a minha chegada, haviam percorrido as dependências do bar, malandramente incógnitos, qual polícia política ou brigada de investigação criminal, fazendo-se passar por dois inocentes convivas, mesclando-se dessa forma na turba anônima dos demais clientes, na busca por tão perigosos e incautos delinqüentes/viciados/prevaricadores, justificando-se tal atitude de calculada camuflagem, certamente, na elevada periculosidade criminosa, decorrente da expelição tenebrosa de fumos cancerígenos, para a atmosfera normalmente límpida e saudável do Estado de São Paulo.

Agora, agentes fiscalizadores trajados com indumentárias civis, para uma mais eficaz caça às bruxas, vulgo fumantes? Por favor, atentos os fins em causa, os tempos da PIDE/DGS, do DOPS, e de outras escrotas instituições similares, já lá vão, ainda que presentes na memória coletiva de todos nós.

Perante o ridículo e o burlesco de tal situação, protagonizada pelos agentes de uma imperial autoridade, não me poderia deixar de recordar da música “Os Vampiros” (infra), sátira à polícia política portuguesa, da autoria do grande e saudoso Zeca Afonso, ícone da resistência contra o regime ditatorial.

Antes de mais, urge agora fazer uma estratégica pausa reflexiva.

Não me restam dúvidas, em como a lei acima citada, na sua suposta gênese, segue uma tendência mundial e generalizada, no que à proibição do fumo em certos recintos fechados, respeita.

Agora, não me venham com o argumento da necessidade em se procurar proteger a saúde dos fumantes passivos, nem com o argumento da necessidade em se combater a pesada oneração dos cofres dos Estados, advinda de despesas decorrentes e imputáveis ao tabagismo.

Se não há estudos científicos independentes e incontestados, em como os fumantes passivos poderão sofrer sérios riscos de saúde, na exposição ao fumo do cigarro e afins, o certo é que, no dito Primeiro Mundo, é incontestável que a arrecadação dos impostos cobrados sobre o tabaco, na maioria das vezes, é exponencialmente superiora aos gastos com a apregoada saúde.

O Tabaco é simplesmente (e sempre o foi), um negócio apetecível para os Estados, verdadeira galinha dos ovos de ouro, um dos muitos braços armados, à disposição da devoradora máquina tributária e fiscal.

Para não falarmos agora, em pormenor, dos contornos ridículos e incoerentes desta tão badalada Lei Antifumo, manto protector de uma duvidosa moral dos bons costumes, que do nada, ora se pretende implementar.

Atentemos às seguintes pérolas normativas:
No seu texto, verte a lei que, se alguém estiver fumando no bar, restaurante ou local assemelhado, será advertido a parar, sob pena de “imediata retirada do local, se necessário mediante o auxílio de força policial”; se a Polícia em São Paulo, regra geral, não se encontrada preparada para a fiscalização de uma lei, vejamos, como a do PSIU, encontrar-se-á preparada para a fiscalização desta lei Antifumo? É que se os fumantes/consumidores do estabelecimento, forem advertidos para as suas condutas prevaricadoras, diante da hipotética relutância em acatarem o cumprimento da lei, só a Polícia terá o poder para, no caso, repor a legalidade. Melhor ainda: se, neste cenário de teimosia por parte do delinqüente, caso tenha sido já chamada a Polícia, chegar a temida fiscalização? Ora, multa-se o dono do estabelecimento, que não tem meios para garantir o cumprimento da lei, para gáudio do obstinado fumante, sobre o qual não recai qualquer punição, quedando todos os intervenientes da paródia, em animada tertúlia, prevaricador (continuando a fumar cigarro, após cigarro), fiscais e corpo gerencial da casa, pelo menos, até à aguardada chegada da Polícia...

Enfim, aguardando o desenrolar dos próximos e ansiados capítulos desta nova e sórdida novela, termino com a transcrição do artigo infra, publicado na Folha de São Paulo, a título de comida para o pensamento da generalidade dos cidadãos, quer os mesmos sejam fumantes, quer não.

Ricardo

"As freiras feias sem Deus".

"O QUE MOVE as pessoas, em meio a tantos problemas, a dedicar tamanha energia para reprimir o uso do tabaco? Resposta: o impulso fascista moderno.

Proteger não fumantes do tabaco em espaços públicos fechados é justo. Minha objeção contra esta lei se dá em outros dois níveis: um mais prático e outro mais teórico.

O prático diz respeito ao fato de ela não preservar alguns poucos bares e restaurantes livres para fumantes, sejam eles consumidores ou trabalhadores do setor. E por que não? Porque o que move o legislador, o fiscal e o dedo-duro é o gozo típico das almas mesquinhas e autoritárias. Uma espécie de freiras feias sem Deus.

O teórico fala de uma tendência contemporânea, que é o triste fato de a democracia não ser, como pensávamos, imune à praga fascista.

A tendência da democracia à lógica tirânica da saúde já havia sido apontada por Tocqueville (século 19).

Dizia o conde francês que a vocação puritana da democracia para a intolerância para com hábitos "inúteis" a levaria a odiar coisas como o álcool e o tabaco, entre outras possibilidades.

Odiaremos comedores de carne? Proprietários de dois carros? Que tal proibir o tabaco em casa em nome do pulmão do vizinho? Ou uma campanha escolar para estimular as crianças a denunciar pais fumantes?

Toda forma de fascismo caminhou para a ampliação do controle da vida mínima. As freiras feias sem Deus gozariam com a ideia de crianças tão críticas dos maus hábitos.

A associação do discurso científico ao constrangimento do comportamento moral, via máquina repressiva do Estado, é típica do fascismo. Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.

E não me venha dizer que no "Primeiro Mundo" todo o mundo faz isso, porque não sou um desses idiotas colonizados que pensam que o "Primeiro Mundo" seja modelo de tudo. Conheço o "Primeiro Mundo" o suficiente para não crer em bobagens desse tipo.

O que essas freiras feias sem Deus não entendem é que o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô."

LUIZ FELIPE PONDÉ

COLUNISTA DA FOLHA

Folha de São Paulo

7 de agosto de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ao meu Professor da Quarta Classe

Ontem à tarde, caminhando sob um céu metálico e sarcasticamente ameaçador, interlúdio entre os dilúvios de proporções bíblicas que se abateram sobre a cidade de São Paulo, deparei-me, em sentido contrário ao trânsito apressado dos meus decididos passos, com uma personagem de feições familiares, que, numa fracção de segundos, julguei ser o meu antigo professor dessa já tão longínqua e nostálgica quarta classe (equivalente à 3ª série, em terras brasileiras de aquém-mar).

Decorrido o momento de surpresa inicial, quando o meu cérebro processou como output concludente e insusceptível de qualquer discussão, a firme impossibilidade em me ter acabado de cruzar com o saudoso e eternamente estimado Prof. Albino, surgiu o incômodo desalento, típica e mais intensamente sentido por alguém a viver fora da aconchegante fronteira do espaço familiar que inevitavelmente o moldou, advindo do engano cometido e da inexorável constatação em como afinal, não fora brindado com a inesperada aparição de um rosto tão acarinhado e com residência permanente no universo da memória, seção arquivística I, composta pelas fieis depositárias gavetas das minhas aprazíveis recordações.

Jamais esquecerei o meu citado Professor, profissional sexagenário de firmados méritos que, depois de se ter aposentado do chamado ensino oficial, decidira abrir um colégio próprio, junto com a sua amada esposa, a fim de poder continuar a leccionar e transmitir os seus muitos conhecimentos, a ávidas e voluntariosas criaturas, em ambiente bem mais intimista e menos anárquico, do que aquele tradicionalmente associado à realidade alvoraçada das escolas públicas.
Foi a minha única experiência no foro do magistério privado, numa época em que o ensino público em Portugal, penso que à imagem e semelhança do sucedido no Brasil, era ainda sinônimo de excelência e qualidade. A decisão dos meus Pais em me matricular em tal escola, radicou na proximidade geográfica da mesma, à minha então residência, bem como no reconhecimento fundamentado dos meus amados progenitores, ambos profissional e umbilicalmente ligados à Educação, no que ao valor e sapiência de tal casal de professores, indubitavelmente respeitava.

O Prof. Albino, segundo a minha ainda cândida e inocente percepção, do alto dos meus nove anos de idade, consubstanciava para mim, enquanto aluno veterano já, prestes a ingressar as fileiras do desafiante e incógnito Ensino Básico (ou 4ª e 5ª séries no Brasil), uma figura tradutora de serena autoridade, plena de magnetizante carisma, por demais exigente para com as nossas agitadas almas, não obstante generosamente voluntarioso e paciente, nessa árdua e magnânime tarefa de educar, suprindo as necessidades individuais de cada um dos seus trinta afortunados alunos.

Recordo-me das suas mãos alvas e esquálidas, espelho deformado da sua real força, solidamente fortificada nas profundezas do seu amável interior.
Como em tudo na vida, o que pode ser verdadeiro e falso num ser ou num objecto sob o nosso escrutínio, de alguma forma depende dos particulares prismas de visão e grau de proximidade com tais elementos. No fundo, o seu frágil organismo, não representava a verdadeira realidade, pelo menos, conforme a sua vontade queria que esta fosse retratada. No caso, a realidade de que nos dávamos conta, era deformada pelo nosso tenro e infantil olhar, à semelhança das imagens retratadas num espelho de feira, ao nos evidenciarem imprevistas e surpreendentes contrariedades.
A sua personalidade forte e vibrante, o seu raciocínio veloz e instigante, de forma alguma condiziam com o revestimento exterior, tragicamente propiciado pelo seu exaurido organismo, debilitado então pela desconhecida doença que o afligia, somada às incógnitas agruras particulares de sua vida.
Sei agora que, a educação, em tão tenra idade, não deixa de ser a pedra fundamental na construção da cultura de um indivíduo, numa maratona amigável, complementar e paralela, com a edificação das fundações e dos pilares das nossas personalidades, tarefa hercúlea e complexa, que tem nos nossos Pais, seus principais protagonistas.

Pelo que, nos percursos mais ou menos atribulados da minha vida, humildemente agradecerei sempre àqueles que sob a capa do amor incondicional e pungentemente abnegado, me muniram da bagagem e das imprescindíveis armaduras, essenciais para o longo enfrentamento e agridoce saborear, dessa odisséia/expedição pessoal tão própria e fascinante, insipidamente apelidada de vida.

Soube hoje, por intermédio de meus sempre saudosos Pais, que o Prof. Albino havia falecido há alguns já.

Pelo que, meu eterno Professor, grande Homem e Mestre altruísta, resta-me lhe dedicar o meu sentido e dedicado Reste em Paz.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

São Paulo Restaurant Week - Inverno 2009

Dita o site oficial de tal evento:
“São Paulo é reconhecida internacionalmente pela sua gastronomia e por abrigar excelentes restaurantes nos quais se pode apreciar o melhor da culinária mundial. O Restaurant Week, que acontece entre 31 de agosto a 13 de setembro, vai mostrar o porquê. A 5a edição paulistana do evento que chega prometendo superar as mais positivas expectativas do público e proprietários de restaurantes.”

Na senda do post anterior, no qual deambulei por entre os mapas cartográficos das paixões humanas e dos singelos prazeres da vida, confidencio na presente sede, a minha confessa apetência pela boa gastronomia, convenientemente apreciada num cenário adequado e propício, aprazível e aconchegante, preferencialmente a dois, convidando-se ainda a companhia silenciosa de um bom e exclusivo vinho.
Depois de tantas e boas experiências nesta cidade, algumas profunda e agradavelmente enlevadoras, arrebatando delicadamente os sentidos, decidi-me, acompanhado, a experimentar o culto dos prazeres da mesa, sob a égide deste particular e tão propalado evento.

A título de experiência introdutória, por referência dedicada de amigos em comum, eu e a minha conviva, optamos pelo Restaurante Balneário das Pedras, sito na Rua Lisboa e nas proximidades da dantesca Avenida Rebouças.
Chegamos por volta das 22h30 e na companhia simpática da atendente, fomos imediatamente introduzidos ao agitado espaço, atravessando inicialmente uma sensaborana antecâmara, contígua a uma espécie de lounge, escuro e abraçado por paredes forradas com tecido vermelho; em seguida, fomos profissionalmente guiados através de um salão pequeno, forrado com alguns quadros e gravuras, até que finalmente, no espaço que corresponderia ao antigo quintal da residência original, fomos conduzidos até ao fundo dos fundos dos fundos, localização que eu depreeendi ser a inocente escolha dos proprietários, para a “exclusiva celebração” do evento aqui em apreço, como elemento diferenciador e notoriamente descriminador, entre o público do programa e os demais e “normais” clientes da casa.

Depois de devidamente sentados, chegou-nos às mãos uma amostra de cardápio, ao que tudo indica, próprio do evento, visualmente desagradável e negligentemente sujo, com as competentes opções de escolha, tal como se seguem:

"Entrada
Mix de Cogumelo com brie grelhados
ou
Carpaccio de salmão com dill e pinolli
Prato principal
Robalo fresco ao molho de limão ciciliano
ou
Gnocchi com molho funghi seco
ou
Filet Mignon em crosta de amêndoas
Sobremesa
Sopa de frutas vermelhas
ou
Quinteto de chocolate"

Em momento cronológico quase simultâneo, principiou a desenrolar-se uma tragicomédia de forma alguma expectável, com contornos polvilhados tanto por elementos do verdadeiro absurdo, quanto do genuinamente grotesco, sendo que os actores principiais de tal trama, afincadamente encarnavam os papeis dos dois funcionários adstritos ao grupo de mesas em que nos encontrávamos, porventura contratados num qualquer teste para o casting de uma eventual paródia.

No tocante aos pratos, os mesmos, pura e simplesmente, não nos deixaram qualquer saudade. Não agradaram a vista e muito menos o expectante paladar.

Não me vou demorar muito na descrição dos episódios lamentáveis a que fomos sujeitos, indiscutivelmente tradutores de um veemente convite formulado pela casa, a jamais aventarmos sequer a hipótese, de alguma vez retornarmos a tais dependências.
A ementa de desfuncionalidades amadoras e caricatas, foi vasta, abrangendo:
  • O verter consecutivamente do vinho, sobre a toalha da mesa, sempre que o mesmo era servido; 
  • A confusão reiterada entre os pedidos da nossa mesa e os solicitados pelas mesas vizinhas; 
  • O quererem levantar os pratos da mesa, sem que a totalidade dos clientes tivesse terminado a refeição; 
  • A constante falta de educação de alguns elementos da equipe do estabelecimento;
  • A ausência total de noção do préstimo de um adequado serviço;
Etc., e etc.

Parabenizo o restaurante em causa, pela lição eficaz e assertiva com que nos brindou, relativamente à polémica temática:
Como perder clientes irremediavelmente, transformando toda a rede social dos mesmos, em quase certos ex-futuros clientes.

Aproveito para oportunamente citar a fadista Mariza, quando melodiosamente canta os seguintes versos da canção A Chuva:
"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades".

Se o anterior restaurante (Rôti) que figurava na mesma localização do Balneário das Pedras, me deixou em tempos, alguns laivos de saudade, o seu sucessor, nos antípodas, apenas me agraciou com desagrado e irritação.

Ricardo

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma Paixão

 
                       
O grande escritor e pensador René Daumal, disse que "Um homem não pode viver sem lume, e não é possível fazer-se lume, sem queimar alguma coisa". 

Pois bem,  como seres humanos que somos, não poderemos negar que as paixões são uma  faceta incontornável da nossa plurifacetada existência, pelas quais invariavelmente nos movemos, situando-nos nesse território vasto e de fronteiras difusas, espraiado por entre os prazeres da vida e a indispensável esperança. 

Sendo inegável que a paixão desempenha (porque lhe atribuimos) um papel primordial nas nossas vidas, podendo vir a revelar-se como nutrimento saudável e/ou prejudicial na alimentação da nossa alma, não poderei concordar mais com Camus,  quando diz que "tudo o que não é paixão tem um fundo de aborrecimento".

A paixão, sendo por natureza genérica, pode-se inclusive prender com elementos menos nobres e banais (na visão dos outros) da nossa infinda realidade circundante, sejam eles um time de futebol, um (...), uma (...), ou até mesmo uma particular marca automobilística.

Se a Alfa Romeo, configura para mim, o Olimpo do mundo automóvel, pela qual nutro uma das minhas muitas paixões, desde a mais tenra infância, incluo agora no blog, um video respeitante a um dos seus muitos modelos,  sob a batuta do sarcástico entertainer Jeremy Clarkson, qual favorito do meu navegador da net, retirado do meritório programa televisivo Top Gear, tributo permanente à degustação e ao apreço por essas máquinas que, tal como a paixão, nos podem despudoradamente queimar ou prazeirosamente incendiar.


Orkut, Facebook ... e hi5´s da vida

Minha opinião relativamente às redes sociais virtuais, da índole e espécie daquelas acima elencadas: embora procure pautar a minha vivência quotidiana, procurando nunca dizer nunca, afirmo com um elevado grau de certeza, perante o testemunho anônimo do ciberespaço, jamais vir a integrar as comunidades de um Orkut ou de um Facebook, abrindo tal intenção minha, uma inocente e complacente excepção ao Msn e ao Skype, no meu entender, radicalmente diferentes daqueles, na filosofia que lhes subjaz e modos de associação/integração.

Ora, permitindo-me assumir ares de pseudo intelectual, poderemos introdutória e conceitualmente considerar que,
“Uma rede social é definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos) e suas conexões” (Wasserman e Faust, 1994, Degenne e Forsé, 1999). A conexão apresentada entre dois atores em uma rede social é denominada laço social, de acordo com os mesmos autores, sendo que um laço é composto por relações sociais que, por sua vez, são constituídas por interações sociais, sendo que estas, se poderão definir como as ações que têm um reflexo comunicativo entre o indivíduo e seus pares. Essas interações repetidas constituem relações sociais. O conceito de laço social desenvolvido até agora passa pela idéia de interação social. É um laço social constituído a partir dessas interações e relações, sendo denominado laço relacional. Entretanto, Breiger explica que o laço social pode ser constituído de outra forma: através de associação, ou seja, uma conexão entre um indivíduo e uma instituição ou grupo, representada unicamente por um sentimento de pertencimento. Trata-se de um laço associativo. Para o autor, portanto, o laço social não depende apenas de interação. Laços relacionais, portanto, são aqueles constituídos através de relações sociais, e apenas podem acontecer através da interação entre os vários atores de uma rede social. Laços de associação, por outro lado, independem dessa ação, sendo necessário, unicamente, um pertencimento a um determinado local, instituição ou grupo."
(In Raquel da Cunha Recuero, Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 28 • dezembro 2005)

Ok.

Depois de este colorido acadêmico, resta-me apenas e unicamente dizer a respeito do conteúdo que antecede, não concordar que os designados laços de associação possam ser tidos como laços sociais, uma vez que entendo pressuporem estes últimos, a idéia de interação social.

Correndo o risco de ser linchado e apelidado de lerdo, intolerante, conservador, e figuras afins, confesso não entender as motivações comumente invocadas, para ser um membro honrado de tais espaços elencados no título, onde as pessoas se colocam a nu, narcisicamente partilhando os seus elaborados perfis, normalmente recheados com uma profusão de fotos escolhidas a dedo, de acordo com as vaidades pessoais de cada um, como elemento competidor e diferenciador para com os elementos que compõe as redes mais próximas dos seus micro planetas virtuais.

Quando normalmente indago aqueles que, dentro do meu círculo de amizades, mais vibram e se dedicam a tais espaços, no que respeita ao que inicialmente os levou a revestirem a capa de personagens orkutianas e afins, respondem-me invariavelmente que é um sinal dos tempos modernos e que as redes sociais virtuais que integram, são uma forma bastante popular de estabelecer contacto com outros seres que, na maior parte dos casos, poderiam nunca vir a conhecer. O objectivo primordial, pelos vistos, é o de se apresentarem aos demais, colocando no perfil as melhores fotos, dados pessoais elaborados e específicos (verídicos ou não), tais como os filmes favoritos, os livros que mais os marcaram, etc., sem outro intuito que não o de cativarem uma sui generis audiência e encontrarem outros utilizadores com gostos e afinidades semelhantes.
Para mim, bem lá no fundo, tudo isso são tretas, manta de falsos argumentos e de manobras de contra-informação, voluntárias ou não, para ocultarem as suas mais reais e mais profundas motivações.
No geral, penso que os homens utilizam tais redes (que nos primórdios eram encaradas pelos mesmos, como espaços primordialmente femininos), para paquerarem à solta no jogo da sedução, com uma muito maior desinibição, infinitamente menos sindicada no universo virtual, do que no chamado mundo real, porque bem mais propícia a atitudes, táticas e personificações insinceras, muitas delas hipotética e imediatamente desmascaradas e logo condenadas ao fracasso, na interação de carne e osso, que não aquela cultivada com avatares. De tal cenário, figura ainda a omnipresença do prazer voyeurístico em se poderem livremente visualizar fotos e perfis de mulherada potencialmente satisfadora das mais íntimas fantasias, tida como alcançável, quer falemos de uma ilustre estranha, quer falemos da vizinha, da amiga ou da colega cobiçada, ou mesmo os alter egos da namorada. O que quer que seja, na senda das preferências eqaucionadas no momento das investigatórias pesquisas, somente com a imaginação como assumida fronteira.

Para as mulheres, verto idêntico raciocínio.
Há outro aspecto que foge um pouco ao meu pragmático entendimento. A título de exemplo, uma estimada ex-namorada minha, animal social inveterado, ex-modelo, ex n profissões e eterna pretendente a ser tudo, fadada a não ser nada, dispunha de quatrocentos e tal contactos no hi5 e uns duzentos e tal no Facebook. Pensamentos sarcásticos à parte, como é que alguém durante as suas normais lides quotidianas, alguma vez vai rentabilizar, a título eminentemente pessoal e na sua vida real, não plugada a um mundo de ordem binária povoado unicamente por bits e bytes, tão astronômicos números de amigos e corte real pessoal?

Daí que entenda consubstanciarem o Msn e o Skype, nos antípodas das redes acima escrutinadas, avanços e ferramentas informáticas primordiais no auxílio ao enfrentamento das exigências do nosso quotidiano, pragmáticas e facilitadoras de processos de real comunicação, com emissores e receptores, e não visceralmente orientados para as fogueiras de vaidades, caprichos e patologias próprias de cada um de nós, enquanto complexos seres humanos.
Poderão me dizer que o blog no qual este relato se abriga, poderá ser entendido como uma manifestação da realidade que acima critico, mas de forma alguma o entendo dessa forma, por razões já aduzidas no meu artigo inicial e pelo fato dos blogs poderem ser, numa última instância, somente espaços de solitário monólogo, sem o intuito primeiro, de qualquer partilha e comunicação de índole relacional.

Mais uma vez, para complementar os meus argumentos e satisfazer a minha adiantada preguiça em escrever, cito novamente a obra acima aludida: “nos blogs, onde os laços são espontâneos (no sentido de que não são mantidos pelo sistema, como no Orkut), há mais custo para que eles sejam mantidos. É preciso interagir e interagir várias vezes no tempo. O capital social resultante dessas relações é mais amplo e sedimentado. No Orkut, as conexões são mantidas sem custo para os indivíduos, gerando falta de interesse na participação e baixo capital social. Além disso, o capital é volátil, já que pode ser facilmente retirado (apagado) do grupo ou mesmo influenciado pelos grupos que buscam desestabilizar o sistema e os boatos que confundem os usuários. Nota-se, pois, uma maior confiança relacionada a uma maior profundidade no laço social e, a esta confiança, uma maior capacidade de gerar capital”.

Ok, parte 2.

Além do mais, no que a esses espaços respeita, sem querer assumir as vestimentas do Velho do Restelo, é muito fácil um utilizador perder o controlo dos dados que coloca na sua página pessoal; assim que um dado fica online, muito dificilmente desaparecerá, mesmo se depois vier a ser apagado. É tão mais fácil, por exemplo, alguém copiar as imagens colocadas num perfil e divulgá-las por outros, distorcê-las e até inseri-las noutras situações, descontextualizando-as completamente. Se me reportar novamente às fotografias publicadas nos perfis, de conteúdo mais ou menos provocante, podem também as mesmas, suscitar num mecanismo perverso, reacções indesejadas e/ou perseguições online e na vida real.
Tendo em conta a facilidade com que se pode criar uma página pessoal nos sítios de redes sociais virtuais, um utilizador mal-intencionado também pode criar uma página com dados falsos para atrair um determinado tipo de pessoas e as enganar, importunar ou explorar. Algo que pode suceder num blog, mas de uma forma bem mais elaborada e bem menos imediata.
Bem sei, poderão se considerar estes últimos parágrafos, como débeis argumentos meus e uma torpe tentativa em me afastar do trilho dos pensamentos inicialmente transcritos e delineados.

Só sei que não me apraz minimamente a ideia de ser um orkutiano, preferindo cultivar e zelar mais afincadamente, pelas minhas relações e amizades do mundo real e verdadeiramente sensorial, onde os olhares e o contacto físico, continuam a ditar as regras da verdadeira convivência e interação animal/pessoal.

Saudações,

Ricardo   

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Eduardo Catinari

Se São Paulo é tão pródiga propiciadora de inéditos e singulares encontros, com as mais diversas e invulgares personalidades, despudoradamente desprovidas de qualquer imaginável interesse, oligofrénicos acéfalos carentes de quaisquer valores, princípios e meritosos objetivos de vida, igualmente nos sabe facilitar de improviso, o inaudito conhecimento de individualidades fascinantes, autênticos e valorosos caminhantes da existência, atrelados a uma bagagem imensa de notória e biográfica História pessoal.
Decidi partilhar e honrar este espaço, com a figura de um grande amigo meu, Eduardo Catinari, pintor, escritor, mulherengo incorrigível, charuteiro, bon vivant, amante dos reais prazeres da vida,
E companheiro de tertúlias infindas, abençoadas com a sua sagacidade e invariavelmente temperadas com a sua incontornável experiência e honestidade. Não obstante a idade cronológica do mesmo, distar em cerca de 40 anos, daquela que figura na minha identidade oficial, a simbiose humana que nos une, situa-se para além de qualquer condicionalismo ditado pelas diferentes proveniências, assaz distintos modus vivendi e característicos percursos pessoais.

Autêntica raridade no atual seio desértico da Humanidade, ao qual aludi no meu último e inaugural artigo, constata-se que o mesmo, depois de guindado ao sucesso e à berlinda nesse indecifrável e intolerante mundo/mercado da arte, se encontra agora invariavelmente negligenciado, nesta sua particular fase da vida, pelo não reconhecimento da sua obra e inconformadamente rica personalidade.

Decidi aqui publicar algumas fotos das suas obras ainda não vendidas e alguns trechos da dita crítica profissional, versando sobre  o seu trabalho, a título de meu singelo tributo e homenagem, áquela que tenho como uma minha enriquecedora amizade.

Eduardo Catinari,
Que o merecido sucesso, muito em breve, novamente lhe sirva como fiel e indissociável companhia .

Ricardo
***


















- Eduardo Catinari -
Pintor nascido na Argentina, em 1938.

Viveu em diversos países, inclusive na Europa, sendo que, durante o seu percurso profissional, criou, nomeadamente, cartazes para filmes do Glauber Rocha e Arnaldo Jabor; em Espanha, na década de 70, ilustrou as revistas Corpo Sano, Rompe Olas, e Bocage. Na França, ilustrou a prestigiada revista L´Express International, e a Management. Criou bandas desenhadas, etc, etc.

Em 1979, já em Sampa, fez a concepção visual e programação de um livro respeitante a aspectos da vida de Maria Bethânia, com fotos de Marisa Alves de Lima e textos do Caetano Veloso, livro este, que ganhou destaque na vitrine especial da Livraria Rizzoli, em Nova York.

Um dos maiores críticos de arte da América Latina, o argentino Rafael Squirru, chegou a dizer que as pinturas do Catinari, são dignas de Miró.

As suas obras, fazem parte de colecções particulares no Canadá, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Argentina e, obviamente, o Brasil também.


"VIAGENS A TERRITÓRIOS INEXPLORADOS DA RAZÃO

Por Danilo Corci

25/10/2003

Os limites do representativo. Essa é, de certa maneira, uma das questões levantadas pelo argentino Eduardo Catinari em sua exposição intitulada "Viagens a territórios inexplorados da razão" no Centro Cultural Blue Life, inaugurado há somente três meses em São Paulo.
Nesta mostra, 36 telas com técnicas de acrílica e mista apresentam uma curiosa linha entre a razão e a imaginação. Em palavras do crítico de arte Celso Fioravanti, os trabalhos de Catinari "buscam um equilíbrio entre campos saturados de cor e símbolos que surgem aqui e ali e que pontuam a imensidão do espaço pictórico, como se ele representasse um campo para a eterna batalha entre a consciência e o inconsciente humanos. Suas telas trazem símbolos oníricos que lembram homens, animais, desenhos rupestres, caligrafias, geometrias, figuras antropomórficas, seres mitológicos e híbridos. São objetos não identificados que surgem em uma constelação de formas, linhas, cores e sentidos. A abstração faz fronteira com o figurativo.
Com curadoria de Lilian Heitor, a exposição do artista plástico lida com um incomodismo racional mas ao mesmo tempo inconsciente, talvez presente em toda a linguagem latino-americana. Sobre essa questão, diz Fioravanti, que escreveu o texto de apresentação da mostra: "Suas pinturas são impregnadas de um pan-americanismo utópico, presente na criação de grandes pensadores latino-americanos, principalmente argentinos, como os escritores Jorge Luis Borges e Julio Cortázar e o pintor Xul Solar. Catinari propõe viagens a culturas desconhecidas e territórios inexplorados da razão."


"Notas Artistas

Eduardo Catinari

Mágico y Cósmico. Revelaciones Interiores

por Daisy Peccinini

De las pinturas recientes de Eduardo Catinari emanan las mejores cualidades del artista contemporáneo: el alto nivel de complejidad conceptual y una escala muy amplia de recursos expresivos.
Su arte es una narrativa de percepciones que traen un universo mágico e ilimitado, captado en muchas experiencias y vivencias de este artista trotamundos, que transitó por los escenarios más diversos, desde el Caribe hasta el Sahara, con períodos de permanencia en París y Madrid, Río de Janeiro y Bahía, entre otros lugares.
Nacido en la ciudad austral de Bahía Blanca, en tierras argentinas, limítrofes con la Patagonia, cono sur del continente, lugares vastos aunque parcamente habitados. Territorio de los grandes silencios humanos y de las fuertes voces de la naturaleza, de inviernos de fríos extremos y de calores insoportables en el verano.
En esta ciudad de carácter inglés se crió el niño solitario en la casa de sus abuelos, rodeado del cariño y de la austeridad típicos de las familias italianas. Desde temprano su contacto con el arte de la pintura fue directo, ya que vivía con ellos su tío, artista. En el ateliíer de este pintor, situado en el primer piso de la casa, sintió desde la más tierna edad el olor de la trementina, los impactos visuales de los colores, de las formas y de todo el instrumental: pinceles, telas, papeles para dibujo, lápices y carbonilla, el mundo donde aprendió a dibujar muy temprano, a los 6 años. Y en los bordes de las telas alineadas escondió, en vano, sus primeras poesías, a los 8 años. La geografía humana de su infancia y adolescencia, transcurrida en este lugar, alejado del incesante bullicio de los grandes centros, le dio la posibilidad de desarrollar un pensar y un sentir solitario, al mismo tiempo independiente y autodidacta.
En busca de otros horizontes, el joven de 15 años, que vivía escribiendo y dibujando, abandonó a su familia para ir a Brasil, el país soñado como un paraíso desde su infancia, cuando veía los dibujos de "Zé Carioca". Se fue a vivir a Río de Janeiro, un verdadero contrapunto de su lugar de origen; era el primer paso hacia una vida aventurera que duró muchas décadas.
A lo largo del recorrido de su arte, que se iniciaba, Eduardo Catinari se destacó desde siempre por un dominio de todas las posibilidades del dibujo. Aplicó estas cualidades en proyectos gráficos, de carteles, en escenografías y campañas publicitarias. Su producción fue muy bien calificada por su gran capacidad de sí¬ntesis y de contextualización de la figura humana en su entorno.
El gran salto se produjo por el encuentro con las obras y el pensamiento de Walter Smetak, en Salvador a fines de los años 60. El contacto con la estética de Smetak fue decisivo, ya que este excepcional músico suizo, de origen checo, había atravesado un proceso de alquimia psicológica al estar en contacto con indios amazónicos y despojarse de toda la cultura europea, incluso musical. Smetak adopta la visión y sensibilidad chamánica de los indios brasileños que, a partir de entonces, orientará todo su proceso creador. Eduardo Catinari aproximó su sensibilidad a este universo smetakiano. La magia y la conciencia cósmica pasaron a ser las constantes en sus obras. Sumado a ello, una total y profunda identificación espiritual con Brasil, una adhesión y un compromiso que lo llevaron, en los años 70, a naturalizarse ciudadano brasileño. En su pintura, ese deseo de zambullirse en la sacralidad emanada de la tierra brasileña, hace abrir los portales de un ferviente imaginario y brotar, según palabras del artista, "nuevas y lúcidas imágenes interiores". Con redoblada actividad se empeñó en crear, estudiar y exponer, realizando muestras en Suiza y en Francia. En una progresión acentuada de despojamiento interior avanzó y cedió espacio en sus percepciones a los territorios mistéricos, ya sea del chamanismo indígena y africano, ya sea de la antroposofía europea. De ello resultan pinturas, a las que viene dedicándose exclusivamente desde 1984. Sin duda, la pintura es la modalidad del arte apropiada, pues los trabajos de Catinari demuestran lo que Leonardo da Vinci afirmaba acerca de la supremacía del arte de la pintura, pues, según da Vinci, todo puede representarse, lo visible y lo invisible.
Catinari se vale de la pintura para impregnar en la tela sus visiones interiores, enfatizando la percepción de lo sagrado de la tierra brasileña. En las composiciones sintéticas, favorece las texturas como para energizar la materia cromática y muestra un universo de seres extraños, estructuras gráficas y orgánicas; muchas de ellas inspiradas en los instrumentos musicales, creadas por Walter Smetak.
La luz, elemento imprescindible de las revelaciones interiores, también está presente y es determinante en sus pinturas, haciendo aflorar, siempre, las figuras y los grafismos simbólicos.
Despertando una increíble sensación, que sorprende y atrae, estas telas ofrecen flashes de la alquimia de la psiquis, pues visualizan otros espacios, otros tiempos, otras naturalezas. Por sobre todo, es obra sensible y original de un narrador de otros mundos, investigados en el espacio metafísico brasileño."