João confidenciava para si mesmo: cinco horas passaram já. Cinco horas e encontro-me EXACTAMENTE no mesmo lugar. A voz irritante que cuspia informações inúteis a partir dos altifalantes do seu carro, metalicamente informava os desgraçados automobilistas que o engarrafamento da cidade, se cifrava agora, nuns inacreditáveis e aterrorizadores 440kms de fila compacta. Não dava para crer. João encontrava-se tensamente paralisado, limitando-se a permitir que as palmas das suas mãos suadas, continuassem indolentemente a afagar as pernas dormentes, geladas e fatigadas, fixando o seu transtornado olhar no infinito, como que aguardando um sinal divino advindo do metálico e carregado céu que vinha abraçando São Paulo, no penoso decurso daquela interminável tarde. Só que, não ia inesperada e miraculosamente surgir a solução de fuga para toda aquela insanidade, da qual se sentia um involuntário e contrariado figurante. A libertação da imobilidade forçada e da prisão metálica em que se encontrava, não se lhe afigurava para breve. Nem uns míseros centímetros para a frente, nem uns míseros centímetros para trás e muito menos, uns míseros centímetros para os lados. João deixara, há muito, de esquizofrenicamente se entreter com a panóplia de instrumentos e gadgets espraiados pelo habitáculo da sua bela máquina importada. Estava cansado de esganar e torturar o suave couro do volante, uma incauta vítima ante o tenaz aperto enfurecido das bem cuidadas garras do seu proprietário. Com a cabeça rigidamente encostada no eficaz apoio, pensava no carro que o abrigava, pérola do requintado consumismo que sempre o afligira. Duzentos e quarenta listrosos cavalos, verdadeiros puros sangue italianos, indiferentemente adormecidos nas entranhas do possante motor que lhes servia de estábulo. O seu reluzente e vistoso automóvel, parecia-lhe agora um objecto fútil e sem graça, um plácido anacronismo, verdadeiro monumento à vaidade e estupidez humana. À sua vaidade e à sua estupidez.
João suspirou pesadamente. Os escurecidos vidros encontravam-se fechados, como que a ingloriamente escudá-lo das agressões externas, dos delinquentes habitantes dos automóveis inferiores que o rodeavam, da (já previsível) loucura que se abatera ao longo daquela invernosa tarde paulistana. Não faltaram avisos. Até os locutores da rádio, se cansaram de procurar esgrimir argumentos ou racionalmente explicar a tragédia agora vivida, há tanto inutilmente anunciada. A pesada e crescente oneração dos bolsos dos contribuintes, associada às draconianas restrições de acesso à fatalmente congestionada malha rodoviária da cidade, bem como a inauguração recente de dez novas estações do Metrô e outras tantas e tantas débeis medidas governativas, acabaram por não impedir a consumação do Armageddon automobilístico que se abatera, de forma inédita e consumada, sobre a vibrante megalópole na qual agora vegetava. Olhava à sua volta e já não se sentia tão orgulhoso do seu bólide. Lembrou-se dos momentos em que, com a carteira bem mais aliviada, o principiou a pavoneá-lo pelas incomplacentes ruas e ruelas desta sua cidade, realizado e orgulhoso com a sua mais recente aquisição. Agora, a história era outra. Trazer uma obra prima da engenharia automobilística, para este cenário de indescritível imobilidade, era como assistir a um filme pornográfico, motivado apenas pelo seu enredo delicado. Começavam a faltar-lhe as bem vindas idéias, para eficazmente procurar matar o cada vez mais pungente e penosamente lento decorrer do tempo. Entretinha-se agora, a raivosamente amaldiçoar a cidade que adoptara, desejando no momento, extirpar a mesma, num fabuloso passe de mágica, da face nebulosa e azulínea do cada vez mais agonizante planetinha terra. Era um caso de amor/ódio, esta sui generis relação com a babilónia viciante, sedutora e desafiadora fogueira das vaidades, que assistira, num lugar de destacada primazia, ao desfilar das suas muitas e rigorosamente planeadas vitórias profissionais. Mas, ao mesmo tempo … a sua Sampa era, a cada dia que passava, palco de uma cada vez maior e indesejada frivolidade, território estéril onde se limitava a usufruir dos expedientes provindos do seu sucesso, desacompanhados da chama e o do ardor que carimbaram o seu recente passado. Vazio, estranhamente vazio, era como de há uns tempos para cá, vinha-se paulatina e amargamente sentindo. Ou frustrado. Ou desencantado. Ainda não tinha devidamente colocado tal realidade, na mesa de operações comandada pela sua analítica e ambiciosa personalidade. Sabia que não queria abrir a caixa de Pandora e deparar-se com as vísceras livremente alimentadas no seu interior, pela sua alma desprovida e calculadamente carente de sentimentos. Só que agora, não podia acenar muitas mais cenouras defronte da sua onírica e dissoluta mente. Pouco podia fazer agora, senão concentrar-se no equacionamento de alternativas ao seu inesperado enclausuramento. No momento caótico que experimentava, nem sequer se podia atrever em pensar encontrar-se com a sua jovem amante, ludicamente paquerar as suas duas voluptuosas secretárias, ou rapidamente regressar à luxuosa cobertura que habitava, na qual, a sua bela, alcoólica e inútil esposa, provavelmente se encontrava (diferente de: o esperava). Tudo lhe parecia vão e desprovido de sentido. Mais uma vez, o repelente vazio. Restava, por ora, o fugidio conflito com o seu despovoado interior. Não podia inventar manobras de diversão, inteligentemente dedicadas aos seus cada vez mais agitados e insatisfeitos sentidos, porque o cenário dantesco em que se encontrava, não dava grande margem de manobra à sua derrotada imaginação. Não lhe restava senão defrontar-se consigo mesmo, desligando o azucrinante rádio e estoicamente permitir então, o assalto dos seus mais íntimos e desagradáveis pensamentos. Não, não agora, disse João para consigo mesmo, animal acossado, torpemente procurando afastar o glacial toque do seu negado descontentamento. Preferiu, pela enésima vez, heroicamente se esforçar em focar toda a sua atenção, na imutável realidade circundante. Realmente, apenas a coloração do céu havia mudado nesta impactante pintura, elaborada por um qualquer mestre demente residente nos infernos. De um frígido cinzento, para uma coloração mais nefasta, um negro ameaçador pacientemente se espraiando por entre as ameaçadoras nuvens, languidamente apoiadas no cada vez mais indistinto céu, qual série de pancadas de Moliére, anunciando a entrada em cena da escuridão claustrofóbica e definitiva da noite. Só que a noite, raramente caminha sozinha. Hoje, certamente, não prescindiria da companhia estimada do seu vasto exército de pesadelos e divertido cardápio de infindos medos e ansiedades. Olhou então em volta, procurando concentrar-se e vislumbrar por entre os vidros enegrecidos da sua viatura, com a débil ajuda da anedótica iluminação pública, tímidos faróis de esperança no palco de um expectável desespero total. Os restantes casulos de metal sobre rodas, serenos e cabisbaixos, estendiam-se até perder de vista, igualmente imobilizados e entorpecidos, algo indiferentes à ansiedade dos condutores e passageiros que albergavam, como que desistindo das suas funções de abnegados meios de transporte, pela impossibilidade prática do exercício das suas impostas atribuições.
Entretanto, alguns homens, mulheres e crianças, contorciam-se com a impaciência, o desespero e a raiva, ante a provável constatação, que nenhuma das invenções humanas, poderia agora ajudá-los a se baterem com o pesadelo em que habitavam.
Curiosamente, para o nosso protagonista, pareciam bem iguais à sua pessoa, todos aqueles humanos que de há umas horas para cá, o cercavam, solidária e igualmente enclausurados nos seus frios caixões de metal. Caixões? Não, o efeito da noite começava já a fazer-se sentir, com o préstimo da total irritação acumulada ao longo das centenas de minutos volvidos, tipificadas por uma total, incontornável, desarmante e categórica imobilização. Apesar de o rodearem veículos de estirpe exponencialmente inferior, os seres que neles se refugiavam, não pareciam, realmente, tão diferentes de si, igualmente assoberbados pelo cansaço e não raras vezes evidenciando uma fronte carregada pela preocupação, padecendo da agitação eminentemente interna, ditada pela imprevisibilidade do desfecho de tão trágica e inédita partitura.
Alguns deles, contudo, aparentavam-lhe se encontrarem a dormir. Olhos cerrados e corpos apoiados num qualquer pedaço da particular fisionomia automóvel. Outros, amparavam a cabeça nas mãos, transportando um olhar derrotado e tal como o seu, até há momentos, fixo num qualquer ponto do infinito vazio. Outros, não quedavam quietos, como que impulsionados por uma invejável e potente bateria, quiçá animada pela ira e/ou aflição extrema. Outros, entretinham-se com os seus celulares, teclando num qualquer exercício mensagístico ou esgotando os seus créditos e minutos, atormentando um qualquer familiar ou amigo, quiçá nas mesmas circunstâncias, quiçá refastelado no aconchego do lar. Outros…outros, sei lá, a vista não abarcava tantos mais personagens assim, diminuída que estava, pela apressada escuridão que sobre tantos companheiros de infortúnio, desdenhosamente se abatia.
Pelo menos, invejava aqueles/aquelas que falavam aos seus celulares. Mais do que provavelmente, ele, João, dispunha de uma carteira infinitamente mais generosa do que a esmagadora maioria das almas que o rodeavam. Podia ter estado a falar desde o início do calvário, até agora, continuando pelos próximos 100 anos, uma ininterrupta e incansável vozearia. Mas não tinha ninguém a quem lhe apetecesse ligar. Aos seus amigos endinheirados, não adiantaria contactar, procurando algum conforto e tentando aplacar os seus contidos e desconfortáveis temores. Para quê? Serviam apenas como compinchas gladiadores na arte da competição e do desafio, alpinistas sociais inveterados, hipócritas parceiros de jogatinas e voluntariosos figurantes em surubas povoadas por modelos escolhidas a dedo e pelo alcance da carteira de cada individualidade. Não para este momento, óbvio. Muito menos poderia ligar para as suas dedicadas amantes, que o cansariam, decorridos poucos segundos, com as suas desconexas e treinadas lengalengas, debitando, nas suas vozes sensuais, mas caracteristicamente vazias, conselhos estúpidos e insinceros, tais como calma meu amor, estava a pensar em ti luz da minha vida (principalmente no meu bem estar económico, etc), etc. Da sua mulher então, nem se poderia aventar a hipótese em pensar numa tão inesperada ligação. O quê, dar agora uma de marido atormentado, assoberbado pela culpa e facadas psicológicas cumuladas, inesperadamente pretendendo se acalmar com a voz da sua parceira na alegria e na tristeza? Não, definitivamente, não. Era tarde para lançar qualquer desajeitada tentativa, fragilmente imbuída de hipotéticos propósitos de reconciliação e reconstituição dos idos tempos de felicidade conjunta, nos quais, paradoxalmente, ambos se debatiam com as mais diversas dificuldades económicas, fruto dos gastos cuidadosamente dispendidos por ambos, numa ambiciosa parceria mútua, tendente a facilitar-lhes a abertura das portas em direcção ao tão cobiçado Olimpo social, onde já há muito, tinham sido hipócrita e predatoriamente acolhidos. Tal intento, ficaria imediatamente retido na dura fronteira da incredulidade. Além do mais, por ter sido a única mulher que verdadeiramente amara, não poderia sujeitar-se a ouvir a sua voz, mais do que provavelmente, já entorpecida pelo alcóol, pelos ansiolíticos e pelos Prozacs da vida. Não ganharia nada com isso, por que nada alteraria a essência da inexistente relação de casal. Não esquecendo que o seu mítico orgulho, o impedia de capitular ante a assunção de um falhanço pessoal, dando combustível gratuito aos seus temores, relembrando-se que a sua fulgurante caminhada para o sucesso social e profissional, jamais havia deixado prisioneiros, transformando voluntariamente a sua mulher, na segunda principal vítima do apetite voraz da sua desmedida ambição. Sim, porque homem inteligente que era e cuidadoso mediador das mais infindas variáveis desse imponderável negócio apelidado de vida, sabia desde há muito, que a principal vítima de todo esse processo de edificação pessoal, havia sido ele, o magnata João, aprisionado agora, não no seu veículo, mas pelos seus fantasmas há tanto desprezados.
Não, não, não por aí. Altivez, sempre, derrota, jamais. Contudo, ecos do seu passado pobre, pretensamente afugentado pelo então vício da leitura compulsiva, fazia-o sentir-se um soldado templário solitário, apoiado na espada ensanguentada e mirando de forma desolada, os corpos inanimados e mutilados dos seus companheiros caídos. Solidão, extrema solidão. João estava desolado e prestes a se deixar abater pelo cansaço. Como nunca lhe havia acontecido. Mais enfraquecido ainda, pela consciência de que o seu intelecto, não conseguia divisar uma solução para o inferno em que se encontrava, para além da hipótese óbvia em abandonar o seu carro e iniciar uma longa caminhada em direção a sua casa, ao escritório, ou até um outro qualquer destino. Pouco interessava. Mas não lhe apetecia. Sentia que tal não resolveria em nada a sua actual condição, os seus tormentos, subitamente mais fortes que ele, podendo tal atitude vir a ser confundida com uma fuga cobarde dos seus íntimos adversários, solidamente refugiados nas trincheiras de uma realidade que iria por ele ser vencida. Para além do mais, estava frio lá fora, fora do casulo aconchegante em que se encontrava. Aqui, para já, sentia-se mais relaxado. Inspirando o cheiro emanado pelo puro couro connolly que revestia as poltronas desportivas, sentindo nos dedos o frio toque do carbono que invadia o painel de instrumentos, deleitando-se com a delicada sintonia que o unia com esta sua máquina e paixão, brinquedo que há tantos anos já, vinha intrepidamente perseguindo.
Não ia abandonar agora o seu magnífico Alfa Romeo, companheiro de infortúnio e fiel escudeiro na batalha que se avizinhava. Estava e sentia-se tão cansado. Talvez se fechasse as pálpebras, quando acordasse, nada disto teria acontecido.
Porque não?
Verifico a trava de segurança das portas e permito-me arrastar para as profundezas escuras do sono ofegante, que me aguarda logo ao virar das esquinas do meu desalento. Indolentemente me recordo da célebre citação de Montaigne, neste meu início de travessia em direcção às amargas entranhas do desconhecido:
"Quando olhas para o abismo, o abismo também olha para ti".
São Paulo, Junho de 2021