quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Orkut, Facebook ... e hi5´s da vida

Minha opinião relativamente às redes sociais virtuais, da índole e espécie daquelas acima elencadas: embora procure pautar a minha vivência quotidiana, procurando nunca dizer nunca, afirmo com um elevado grau de certeza, perante o testemunho anônimo do ciberespaço, jamais vir a integrar as comunidades de um Orkut ou de um Facebook, abrindo tal intenção minha, uma inocente e complacente excepção ao Msn e ao Skype, no meu entender, radicalmente diferentes daqueles, na filosofia que lhes subjaz e modos de associação/integração.

Ora, permitindo-me assumir ares de pseudo intelectual, poderemos introdutória e conceitualmente considerar que,
“Uma rede social é definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos) e suas conexões” (Wasserman e Faust, 1994, Degenne e Forsé, 1999). A conexão apresentada entre dois atores em uma rede social é denominada laço social, de acordo com os mesmos autores, sendo que um laço é composto por relações sociais que, por sua vez, são constituídas por interações sociais, sendo que estas, se poderão definir como as ações que têm um reflexo comunicativo entre o indivíduo e seus pares. Essas interações repetidas constituem relações sociais. O conceito de laço social desenvolvido até agora passa pela idéia de interação social. É um laço social constituído a partir dessas interações e relações, sendo denominado laço relacional. Entretanto, Breiger explica que o laço social pode ser constituído de outra forma: através de associação, ou seja, uma conexão entre um indivíduo e uma instituição ou grupo, representada unicamente por um sentimento de pertencimento. Trata-se de um laço associativo. Para o autor, portanto, o laço social não depende apenas de interação. Laços relacionais, portanto, são aqueles constituídos através de relações sociais, e apenas podem acontecer através da interação entre os vários atores de uma rede social. Laços de associação, por outro lado, independem dessa ação, sendo necessário, unicamente, um pertencimento a um determinado local, instituição ou grupo."
(In Raquel da Cunha Recuero, Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 28 • dezembro 2005)

Ok.

Depois de este colorido acadêmico, resta-me apenas e unicamente dizer a respeito do conteúdo que antecede, não concordar que os designados laços de associação possam ser tidos como laços sociais, uma vez que entendo pressuporem estes últimos, a idéia de interação social.

Correndo o risco de ser linchado e apelidado de lerdo, intolerante, conservador, e figuras afins, confesso não entender as motivações comumente invocadas, para ser um membro honrado de tais espaços elencados no título, onde as pessoas se colocam a nu, narcisicamente partilhando os seus elaborados perfis, normalmente recheados com uma profusão de fotos escolhidas a dedo, de acordo com as vaidades pessoais de cada um, como elemento competidor e diferenciador para com os elementos que compõe as redes mais próximas dos seus micro planetas virtuais.

Quando normalmente indago aqueles que, dentro do meu círculo de amizades, mais vibram e se dedicam a tais espaços, no que respeita ao que inicialmente os levou a revestirem a capa de personagens orkutianas e afins, respondem-me invariavelmente que é um sinal dos tempos modernos e que as redes sociais virtuais que integram, são uma forma bastante popular de estabelecer contacto com outros seres que, na maior parte dos casos, poderiam nunca vir a conhecer. O objectivo primordial, pelos vistos, é o de se apresentarem aos demais, colocando no perfil as melhores fotos, dados pessoais elaborados e específicos (verídicos ou não), tais como os filmes favoritos, os livros que mais os marcaram, etc., sem outro intuito que não o de cativarem uma sui generis audiência e encontrarem outros utilizadores com gostos e afinidades semelhantes.
Para mim, bem lá no fundo, tudo isso são tretas, manta de falsos argumentos e de manobras de contra-informação, voluntárias ou não, para ocultarem as suas mais reais e mais profundas motivações.
No geral, penso que os homens utilizam tais redes (que nos primórdios eram encaradas pelos mesmos, como espaços primordialmente femininos), para paquerarem à solta no jogo da sedução, com uma muito maior desinibição, infinitamente menos sindicada no universo virtual, do que no chamado mundo real, porque bem mais propícia a atitudes, táticas e personificações insinceras, muitas delas hipotética e imediatamente desmascaradas e logo condenadas ao fracasso, na interação de carne e osso, que não aquela cultivada com avatares. De tal cenário, figura ainda a omnipresença do prazer voyeurístico em se poderem livremente visualizar fotos e perfis de mulherada potencialmente satisfadora das mais íntimas fantasias, tida como alcançável, quer falemos de uma ilustre estranha, quer falemos da vizinha, da amiga ou da colega cobiçada, ou mesmo os alter egos da namorada. O que quer que seja, na senda das preferências eqaucionadas no momento das investigatórias pesquisas, somente com a imaginação como assumida fronteira.

Para as mulheres, verto idêntico raciocínio.
Há outro aspecto que foge um pouco ao meu pragmático entendimento. A título de exemplo, uma estimada ex-namorada minha, animal social inveterado, ex-modelo, ex n profissões e eterna pretendente a ser tudo, fadada a não ser nada, dispunha de quatrocentos e tal contactos no hi5 e uns duzentos e tal no Facebook. Pensamentos sarcásticos à parte, como é que alguém durante as suas normais lides quotidianas, alguma vez vai rentabilizar, a título eminentemente pessoal e na sua vida real, não plugada a um mundo de ordem binária povoado unicamente por bits e bytes, tão astronômicos números de amigos e corte real pessoal?

Daí que entenda consubstanciarem o Msn e o Skype, nos antípodas das redes acima escrutinadas, avanços e ferramentas informáticas primordiais no auxílio ao enfrentamento das exigências do nosso quotidiano, pragmáticas e facilitadoras de processos de real comunicação, com emissores e receptores, e não visceralmente orientados para as fogueiras de vaidades, caprichos e patologias próprias de cada um de nós, enquanto complexos seres humanos.
Poderão me dizer que o blog no qual este relato se abriga, poderá ser entendido como uma manifestação da realidade que acima critico, mas de forma alguma o entendo dessa forma, por razões já aduzidas no meu artigo inicial e pelo fato dos blogs poderem ser, numa última instância, somente espaços de solitário monólogo, sem o intuito primeiro, de qualquer partilha e comunicação de índole relacional.

Mais uma vez, para complementar os meus argumentos e satisfazer a minha adiantada preguiça em escrever, cito novamente a obra acima aludida: “nos blogs, onde os laços são espontâneos (no sentido de que não são mantidos pelo sistema, como no Orkut), há mais custo para que eles sejam mantidos. É preciso interagir e interagir várias vezes no tempo. O capital social resultante dessas relações é mais amplo e sedimentado. No Orkut, as conexões são mantidas sem custo para os indivíduos, gerando falta de interesse na participação e baixo capital social. Além disso, o capital é volátil, já que pode ser facilmente retirado (apagado) do grupo ou mesmo influenciado pelos grupos que buscam desestabilizar o sistema e os boatos que confundem os usuários. Nota-se, pois, uma maior confiança relacionada a uma maior profundidade no laço social e, a esta confiança, uma maior capacidade de gerar capital”.

Ok, parte 2.

Além do mais, no que a esses espaços respeita, sem querer assumir as vestimentas do Velho do Restelo, é muito fácil um utilizador perder o controlo dos dados que coloca na sua página pessoal; assim que um dado fica online, muito dificilmente desaparecerá, mesmo se depois vier a ser apagado. É tão mais fácil, por exemplo, alguém copiar as imagens colocadas num perfil e divulgá-las por outros, distorcê-las e até inseri-las noutras situações, descontextualizando-as completamente. Se me reportar novamente às fotografias publicadas nos perfis, de conteúdo mais ou menos provocante, podem também as mesmas, suscitar num mecanismo perverso, reacções indesejadas e/ou perseguições online e na vida real.
Tendo em conta a facilidade com que se pode criar uma página pessoal nos sítios de redes sociais virtuais, um utilizador mal-intencionado também pode criar uma página com dados falsos para atrair um determinado tipo de pessoas e as enganar, importunar ou explorar. Algo que pode suceder num blog, mas de uma forma bem mais elaborada e bem menos imediata.
Bem sei, poderão se considerar estes últimos parágrafos, como débeis argumentos meus e uma torpe tentativa em me afastar do trilho dos pensamentos inicialmente transcritos e delineados.

Só sei que não me apraz minimamente a ideia de ser um orkutiano, preferindo cultivar e zelar mais afincadamente, pelas minhas relações e amizades do mundo real e verdadeiramente sensorial, onde os olhares e o contacto físico, continuam a ditar as regras da verdadeira convivência e interação animal/pessoal.

Saudações,

Ricardo   

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