Ontem à tarde, caminhando sob um céu metálico e sarcasticamente ameaçador, interlúdio entre os dilúvios de proporções bíblicas que se abateram sobre a cidade de São Paulo, deparei-me, em sentido contrário ao trânsito apressado dos meus decididos passos, com uma personagem de feições familiares, que, numa fracção de segundos, julguei ser o meu antigo professor dessa já tão longínqua e nostálgica quarta classe (equivalente à 3ª série, em terras brasileiras de aquém-mar).
Decorrido o momento de surpresa inicial, quando o meu cérebro processou como output concludente e insusceptível de qualquer discussão, a firme impossibilidade em me ter acabado de cruzar com o saudoso e eternamente estimado Prof. Albino, surgiu o incômodo desalento, típica e mais intensamente sentido por alguém a viver fora da aconchegante fronteira do espaço familiar que inevitavelmente o moldou, advindo do engano cometido e da inexorável constatação em como afinal, não fora brindado com a inesperada aparição de um rosto tão acarinhado e com residência permanente no universo da memória, seção arquivística I, composta pelas fieis depositárias gavetas das minhas aprazíveis recordações.
Jamais esquecerei o meu citado Professor, profissional sexagenário de firmados méritos que, depois de se ter aposentado do chamado ensino oficial, decidira abrir um colégio próprio, junto com a sua amada esposa, a fim de poder continuar a leccionar e transmitir os seus muitos conhecimentos, a ávidas e voluntariosas criaturas, em ambiente bem mais intimista e menos anárquico, do que aquele tradicionalmente associado à realidade alvoraçada das escolas públicas.
Foi a minha única experiência no foro do magistério privado, numa época em que o ensino público em Portugal, penso que à imagem e semelhança do sucedido no Brasil, era ainda sinônimo de excelência e qualidade. A decisão dos meus Pais em me matricular em tal escola, radicou na proximidade geográfica da mesma, à minha então residência, bem como no reconhecimento fundamentado dos meus amados progenitores, ambos profissional e umbilicalmente ligados à Educação, no que ao valor e sapiência de tal casal de professores, indubitavelmente respeitava.
O Prof. Albino, segundo a minha ainda cândida e inocente percepção, do alto dos meus nove anos de idade, consubstanciava para mim, enquanto aluno veterano já, prestes a ingressar as fileiras do desafiante e incógnito Ensino Básico (ou 4ª e 5ª séries no Brasil), uma figura tradutora de serena autoridade, plena de magnetizante carisma, por demais exigente para com as nossas agitadas almas, não obstante generosamente voluntarioso e paciente, nessa árdua e magnânime tarefa de educar, suprindo as necessidades individuais de cada um dos seus trinta afortunados alunos.
Recordo-me das suas mãos alvas e esquálidas, espelho deformado da sua real força, solidamente fortificada nas profundezas do seu amável interior.
Como em tudo na vida, o que pode ser verdadeiro e falso num ser ou num objecto sob o nosso escrutínio, de alguma forma depende dos particulares prismas de visão e grau de proximidade com tais elementos. No fundo, o seu frágil organismo, não representava a verdadeira realidade, pelo menos, conforme a sua vontade queria que esta fosse retratada. No caso, a realidade de que nos dávamos conta, era deformada pelo nosso tenro e infantil olhar, à semelhança das imagens retratadas num espelho de feira, ao nos evidenciarem imprevistas e surpreendentes contrariedades.
A sua personalidade forte e vibrante, o seu raciocínio veloz e instigante, de forma alguma condiziam com o revestimento exterior, tragicamente propiciado pelo seu exaurido organismo, debilitado então pela desconhecida doença que o afligia, somada às incógnitas agruras particulares de sua vida.
Sei agora que, a educação, em tão tenra idade, não deixa de ser a pedra fundamental na construção da cultura de um indivíduo, numa maratona amigável, complementar e paralela, com a edificação das fundações e dos pilares das nossas personalidades, tarefa hercúlea e complexa, que tem nos nossos Pais, seus principais protagonistas.
Pelo que, nos percursos mais ou menos atribulados da minha vida, humildemente agradecerei sempre àqueles que sob a capa do amor incondicional e pungentemente abnegado, me muniram da bagagem e das imprescindíveis armaduras, essenciais para o longo enfrentamento e agridoce saborear, dessa odisséia/expedição pessoal tão própria e fascinante, insipidamente apelidada de vida.
Soube hoje, por intermédio de meus sempre saudosos Pais, que o Prof. Albino havia falecido há alguns já.
Pelo que, meu eterno Professor, grande Homem e Mestre altruísta, resta-me lhe dedicar o meu sentido e dedicado Reste em Paz.
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