terça-feira, 29 de setembro de 2009

Fugazes habitantes do Metrô


Intróito contendo informação inútil:

Fazendo fé nas informações disponibilizadas no site da Wikipédia, a meu ver, a sempre útil enciclopédia dos preguiçosos, o Metrô de São Paulo é “considerado um dos mais modernos e limpos do mundo” e ”ocupa a 12ª posição em número de passageiros transportados por ano, 845,6 milhões”, sendo que a sua ridiculamente pequena e desfazada malha, “possui 61,3 km de extensão e 55 estações”.

Texto, propriamente dito:

Não sei porquê, mas sempre que me desloco de Metrô, em direcção a localizações, nas quais simplesmente não me atrevo a aventurar ao comando de um automóvel, por entre o caótico e intenso tráfico rodoviário da superfície, não consigo impedir o meu olhar de varrer, discreta e curiosamente, os rostos e posturas dos circundantes usuários, meus companheiros involuntários de ocasião, ao longo das minhas invariavelmente curtas incursões pelo subsolo de São Paulo.

Pois bem, daqueles 845,6 milhões de passageiros/ano, falemos então da curta amostragem com a qual me cruzo e deparo, no Metrô desta gigantesca e tentacular cidade.

Antes de tudo, contrariando-se a lógica redutoramente classificativa do povo brasileiro, que  controversamente o apelida como sendo endemicamente alegre e folgazão, o que primeiramente me assalta a vista, é a constatação empírica da ausência generalizada de sorrisos ou, em alternativa, de expressões serenamente tranqüilas e prazeirosamente sossegadas. Parece que, pelo simples fato de terem sido retirados do seu meio natural, da agitada e imprevisível superfície que habitam, agora despejados e encerrados em claustrofóbicas e atulhadas composições metálicas, que disparam cegamente por entre escuros e incógnitos corredores subterrâneos, ainda para mais, na involuntária e forçada companhia de ilustres desconhecidos, optam então por cerrar o cenho, obrigando-se ao mais confortável alheamento do cenário onde temporariamente se encontram, optando por pensar nas suas vidas e agruras, ou simplesmente em nada, evitando desta forma, o se confrontarem nas suas condições de vulneráveis enlatados e, acima de tudo, em perscrutar os rostos (e principalmente os olhares) daqueles que os asfixiam e rodeiam.

Aquilo que à superfície, é uma atitude normal dos brasileiros, a de se entreolharem e se apreciarem de forma despudorada, de forma alguma acontece aquando da obrigatória e necessária clausura nos vagões, mudando-se completamente as posturas, preferindo-se a assunção de um pacto de não agressão com os seus semelhantes, a exemplo do que acontece nos outros tantos metros sob diferentes cidades estrangeiras, a fim de não se ferirem susceptibilidades, evitando-se possíveis e incómodas defrontações, numa arena indesejadamente visitada, cujas portas para a liberdade e para o familiar, se abrem numa cadência imprevisível de uns quantos e fugazes segundos.

Penso que é por tal motivo que, de forma artificial, alguns usuários, carregam consigo livros ou simplesmente optam por fixar a sua atenção no chão ou então, mais comummente, em qualquer ponto desconhecido e distante, que parece furar o revestimento das composições.

Isto, se estiverem desacompanhados, uma vez que normalmente não despem a capa da dita normalidade de suas condutas, caso estejam na companhia familiar de amigos ou de conhecidos, tábuas de salvação para o silêncio forçado e fugidios olhares que os acometem, sempre que tiverem de enfrentar as viagens de forma solitária, na ausência da liberdade do terreno superior ou da armadura aí propiciada pelos seus bólides, ao invés dos ditames das catacumbas subterrâneas, onde lhes restam unicamente o instinto de sobrevivência, as preocupações, as fragilidades e os temores próprios de cada um, como amargas e habituais companhias.

Até porque, ainda não ouvi ninguém dizer que se passeia na solidão acompanhada do Metrô por diversão, retirando um qualquer prazer desconhecido de tal meio de transporte, mas somente e apenas, a audição da simples justificativa da necessidade, obrigação e cumprimento das actuais exigências ditadas pela sociedade contemporânea, como razões únicas, que os impelem ao enfrentamento voluntário da asfixia e curiosas particularidades de tais visitas ao porão "moderno e limpo" da cidade.


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