terça-feira, 28 de setembro de 2010

Arte na Consolação


Há não muito tempo atrás, no ainda espreguiçar de uma certa manhã límpida e despida das nuvens que têm adornado o moribundo Inverno, introspectivamente banhado por uma chuva intermitente de tépidos e fugidios raios de luz entrecortados pela espessa folhagem das árvores que me abrigavam, encontrava-me eu no cemitério da Consolação. A minha presença inédita em tão referenciado lugar com morada cativa na memória viva da cidade, infelizmente se devia ao meu comparecimento num funeral de uma familiar de certa pessoa amiga.


Não obstante tão lamentável, ainda que razoavelmente esperado acontecimento, de alguma forma debruçado sobre o género de pensamentos que invariavelmente nos afagam e acometem no decurso de tais solenidades, acabei surpreendendo-me, nos derradeiros momentos da compungida cerimónia, a melhor atentar no cenário em que tal quadro de mágoa e ainda não interiorizada resignação, penosa e sofridamente transcorria.

O que primeiramente me chamou a atenção, foi a imensidão do lugar. O cemitério, cravado no coração de São Paulo, estende-se até perder de vista, provocatoriamente desafiando a atual e mercenária euforia de febril expansão imobiliária.

Ainda que abraçado ao longe pelos típicos arranha céus que compõem a silhueta da cidade, acabei sentindo-me um ocasional figurante num dos mais singulares espaços que havia até então conhecido nesta vibrante e eclética Sampa, ambígua e prazeirosa Babilónia, que unilateralmente e por ora adoptei, não só como meu refúgio, mas também como minha morada.

E digo figurante, porque não me encontrava sozinho.


Nunca se fica absolutamente indiferente e solitário num cemitério, pela atmosfera respeitosa e normalmente digna que acaba sempre por condicionar e admoestar o nosso espírito.


A proximidade do trato com a Morte, com embaixada permanente nas sepulturas que compõem e moldam tais espaços, encerra em si uma previsível condução dos nossos pensamentos e introspecções, em direcção à assumpção da nossa mortalidade, com uma intensidade e com um vívido desafio, que imodestamente não desejamos como parceiros costumeiros.

Mas ainda que um cemitério seja um feudo da nossa mortalidade, há cemitérios e cemitérios, à imagem e semelhança de qualquer fenómeno de nossas vidas terrenas.


E o cemitério da Consolação, não prima pela singeleza e humildes tributos das famílias aos seus saudosos entes queridos. É, de forma despudorada, uma faustosa montra da grandiosidade outrora milionária e requintada da cidade, não se coibindo em mostrar aos seus visitantes, os extraordinários jazigos/monumentos que placidamente o povoam, verdadeiras e (in)voluntárias odes ao poder monetário das elites de então, à laia de lembrete das disseminadas fortunas do presente, menos refinadas, mas mais fiéis ao cada vez mais frequente apelido da cidade, enquanto fogueira das vaidades sul americanas.

Tendo sido acordado dos meus devaneios, pelo firme abraço de uma minha amiga, despedi-me da desditosa família da idosa falecida, acabando por segui-los em direção à longínqua saída, mas paulatinamente abrandando o meu passo, até que qualquer viva alma, deixasse de servir ao meu olhar, de companhia.


Indolentemente parei num dos cruzamentos de tantas das inúmeras artérias que rasgam o intrincado mapa do espaço. O silêncio, tesouro raro na cidade que jamais aprenderá a dormir, era quase absoluto, servindo como um bálsamo para a histeria de motores e de buzinas, que pornograficamente confraternizava, nem a duas centenas de metros do sereno local onde agora me encontrava.

Optei por não abandonar de imediato tal lugar, permitindo-me apreciar a estranhamente aprazível tranquilidade que nesse espaço grassava, rodeado que estava pela memória palpável de tantos que haviam já partido, silenciosamente me alegrando pela minha saúde e ainda razoavelmente jovem idade, não obstante me recordando do incontornável desfecho do imprevisível teatro de nossas vidas.

Mas, procurando afastar tão evidentes reflexões, forcei-me a reparar que o cemitério permanecia virtualmente vazio.


Os meus olhos, principiaram a deambular novamente interessados pelas cercanias e amiúde se deparavam com magníficas esculturas, ou sob a forma de penitentes figuras solitárias ou como actores protagonistas de majestosas e intrincadas composições, muitas delas, vívidas, ainda que não raramente deterioradas, testemunhas dos génios criadores de alguns dos maiores e referenciados artistas plásticos brasileiros de sempre.

Pelo que, cedendo à tentação e não obstante os semeados avisos de proibição em fotografar, me sentindo potencialmente menos prevaricador, retirei do meu bolso, à falta de melhor equipamento, o meu aparelho fotográfico disfarçado sobre a forma de celular, principiando a bater algumas das fotos que agora adornam este artigo, optando sem grande critério, por entre um vastíssimo e rol de verdadeiras obras de arte, abnegadamente espraiadas pela vastíssima extensão deste verdadeiro e ignorado museu, habitado por um mar de virtuosas e prodigiosas sepulturas.


Ainda que qualquer um de nós precise da tranquilidade solitária para colocar os seus pensamentos em dia, jamais imaginava eu, que acabaria por permitir que os mesmos fluíssem tão serenamente num palco de tão pesado silêncio e amarga grandiosidade.


Mas a vida continua a sua inexorável marcha e depois de calmamente andar uma considerável distância sem aparente destino, começando a sentir já o calor agressivo de um não tão tímido sol, desconfortavelmente alto e arrogante, decidi-me a ir embora, tomando o caminho dos pesados portões de ferro, guardiões que escudavam este mundo de derradeiros endereços e apartados, dos desafios e da insanidade ululante que impregna a vida dos vivos.


A título de epitáfio de tal visita, encerro estas linhas, transcrevendo um excerto da publicação da Prefeitura de São Paulo, intitulada “História e Arte no cemitério da Consolação “ (José de Souza Martins) :

“O Cemitério da Consolação é um espelho em que os vivos se refletem e se encontram na memória dos mortos. Ali, no silêncio definitivo, podem os mortos ser interrogados e compreendidos no seu legado a este País e a São Paulo, estado e cidade.


Um passeio pelo Cemitério da Consolação é um passeio por dentro da nossa alma coletiva, uma visita a nós mesmos, a descoberta e a confirmação das configurações objetivas do que dá sentido ao que fazemos e ao que deixamos de fazer. Resíduo denso das significações fundamentais que têm orientado a nossa mentalidade coletiva e nossa visão de mundo nos últimos dois séculos, que é a idade de seus mortos mais antigos”.

sábado, 25 de setembro de 2010

Antti Kalhola / FOM / You Tube

No vasto mundo exploratório e semi-infinito da World Wide Web, ninguém poderá negar nos dias de hoje, com pleno discernimento, que atualmente a internet, numa das suas múltiplas facetas, pode se ter como uma grande fonte lúdica para os seus usuários, independentemente dos gostos e preferências individuais que movem cada um de nós.

É um verdadeiro mundo ao nosso alcance, que de entre uma multiplicidade de divulgação do mais puro lixo e palha sem o mais ínfimo interesse, nos revela, de quando em quando, imprevistos talentos por parte de quem se serve das suas múltiplas plataformas, no provável intuito em meritoriamente sairem do anonimato e democraticamente sobressairem pela qualidade das suas aptidões invulgares.

Será notório, para quem já passou os olhos por este blog, que sou um visceral apaixonado pelo mundo automóvel e não poderia deixar de dedicar umas curtas palavras a alguém que para mim é um ilustre e desconhecido adolescente, oriundo de um qualquer país do norte da Europa, que conseguiu, exactamente pela sua arte na edição de certos videos, a feitura de incomodar entidades tão poderosas quanto a FOM (Formula One Management), que pelos vistos, se sentiu tão hipocritamente molestada pela violação dos termos de usos de algumas imagens de sua propriedade (ainda que as mesmas proliferem e se encontrem pulverizadas por milhões de espaços na net), obrigando o You Tube a compulsoriamente encerrar a conta do tal ameaçador jovem. Mas é já demasiado tarde para que o legado seja irremediavelmente irradicado dos nossos monitores.

Na minha investigação a tal episódio, ao reparar que muitos dos videos do tal Antti Kalhola eram reiteradamente removidos dos canais do You Tube, deparei-me com um certo artigo do continental-circus.blogspot.com, intitulado Porquê a FOM tem medo de Antti Kalhola?, cujo link aqui reproduzirei, para quem sentir alguma curiosidade sobre tal polémica:

Os seus videos podem ter sido removidos do You Tube, mas não o foram inteiramente removidos da net, pelas mãos e auspícios de alguns dos seus fieis seguidores, que não poderiam deixar de publicitar e divulgar algumas autênticas obras primas de tão insuspeito amador.

Na senda do espírito democrático que me move, aliado à minha admiração de algumas das suas curtas, aqui teimosamente publicarei alguns de tão perseguidos e aparentemente funestos videos, entre os quais, uma belíssima homenagem ao precocemente falecido Ayrton Senna, tributo este, que terá estado na génese da sua citada excomunhão (visualização da 5ª parte em http://www.streetfire.net/video/ayrton-senna-5-5_2005730.htm):











terça-feira, 23 de março de 2010

Pequeno Conto - Gonçalo e as flores da sua não vida

A figura placidamente sentada numa das conhecidas e badaladas esplanadas da Foz do Douro, contemplava serenamente, ainda que munido de uma indisfarçada mirada fixa e concentrada, o maravilhoso desenrolar daquele imprevisto e ruborizado ocaso, náufrago indolente nas águas gélidas e cintilantes do mar. Não qualquer mar, mas sim aquele que trazia à memória do nosso personagem, os idos e agitados tempos em que cursava Direito num quarteirão bem próximo àquele onde agora voluntariamente se refugiara e se esforçava em poder manter em ordem a esmagadora maioria dos seus tumultuados pensamentos. Estávamos em Janeiro e apesar de nos situarmos em pleno Inverno, poucas eram as nuvens que se avistavam no céu pictoriamente incendiado, ficando a cargo dos dedos gélidos de uma enganosamente suave brisa terrestre, originária dos confins do bárbaro Norte, o inevitável lembrete dos 8º C que castigavam a pele não abrigada.
Ainda que solitariamente embrenhado em profunda meditação e indiferente aos demais circundantes, a tez morena e a postura inatamente formal de Gonçalo, não disfarçavam os seus trinta e pouco anos, vividos desbragadamente, de um modo algo excêntrico e não raras vezes atribulado. Encontrava-se elegantemente envolto por discretas roupagens de marca, vestígios rarefeitos de um passado não tão distante assim, que não condiziam com a sua actual e humilhantemente fragilizada condição económica. Mas este aspecto em particular, simplesmente deixara de verdadeiramente o incomodar, não permitindo a si mesmo o deixar-se tão ingloriamente arrastar para as grutas escuras da depressão, vizinha omnipresente da sua vivência ultimamente tão tumultuada, qual vôo nocturno pilotado numa noite negra e tempestuosa, sem o indispensável socorro dos defuntos instrumentos de bordo. Mas, como dissera já Saint- Exupéry, escritor cuja biografia abertamente admirava, “a ordem não cria a vida”, pelo que, num exercício algo rebuscado de deturpada lógica, se confortava em fragilmente acreditar que o caos que recentemente se abatera sobre a sua vida, seria então um período de inestimável aprendizado e de esforçada edificação das sólidas bases para uma vivência menos rotineira e indolentemente estupidificante. Porque não? Embora duvidasse que o citado autor concordasse com tal manipulação da sua célebre citação. Enfim. Tivera que simplesmente aprender com a colheita das suas últimas vivências e sobrevivências, permitindo apenas à sua alma, agitações pouco agonizantes ante as águas escuras e tumultuosas dos riachos enegrecidos em que se vinha involuntariamente banhando.

Mas seria notório para um qualquer observador atento, que a tal mirada imperturbada de Gonçalo, não revelava tranquilidade, mas sim uma esforçada e recalcitrante tentativa em se concentrar, debilmente disfarçada pela atenta fixação do seu olhar na vasta imensidão confessional do mar agitado.
Não havia muitos dias que havia regressado a Portugal, no intuito de saborear as suas curtas férias, após uma primeira temporada de trabalho nos sufocantes trópicos de uma qualquer ex-colónia do antigo e decadente império lusitano. Regressava a casa, ao seu porto de abrigo, meio ano após a sua decisão de aceitar um obscuro cargo ultramarino, do lado de lá da costa que agora mirava e albergava a totalidade dos seus amigos e familiares.

Ainda que nos últimos dias de sua viagem, continuasse sob a influência de uma tempestade teimosamente incontrolada de emoções, quiçá próprias de quem optou por prescindir do seu costumeiro círculo de afinidades e do aconchego da sua cidade de nascença, em detrimento de uma aventura, nem para todos compreensível, do lado errado do oceano.

Mas não eram essas as emoções que agora verdadeiramente o agitavam. Eram apenas atrizes secundárias no processo que o havia levado àquela acarinhada esplanada, albergue de memórias indissociáveis de outros tempos, de um não tão remoto passado.

Gonçalo aprendera a não decidir sobre factos importantes, em cima da hora, a menos que a tal fosse obrigado.

Queria reflectir primeiramente sobre a noite passada, em amado território portuense, antes do seu agendado regresso ao país no qual agora trabalhava e para o qual se tinha temporariamente mudado, na perseguição, porventura, do seu idoso intuito em procurar vivenciar experiências além-fronteiras, incognitamente se colocando à prova no seio de novas e desafiantes culturas, levando como inevitável bagagem da sua personalidade, a esperança em conseguir aplacar a sua congénita e agitada insatisfação.

Sim, a noite passada...

Ainda sentia a força dos seus efeitos, nem que fosse pelas poucas horas dormidas e pela ressaca incomplacente que teimava em reiteradamente comprimir o seu cérebro entorpecido.

Mas, vamos aos factos.

Não era isto que incomodava Gonçalo, mas sim a aludida noite anterior, palco do reencontro com a única figura feminina que o invariavelmente perseguia no corredor das suas memórias e vívidas recordações. Chamava-se Isabella e havia jantado com a mesma, somente há algumas horas atrás.
Ela era a responsável pelo contentamento descontente do nosso personagem. Como invariavelmente se sentiu na duas únicas ocasiões em que desfrutara da presença e companhia dessa mulher tão fascinante, quanto assombradora da sua alma.

Isabella significava para si, a mais genuína personificação do pronome Se. Do que poderia ter sido e não chegou a ser. A incómoda encarnação de uma desejada variante na sua vida, nado morto que jamais veria a luz do dia.

Foi há alguns anos atrás que tinha conhecido essa esbelta e requintada aristocrata do famigerado sexo oposto que, do nada e sem qualquer prévia autorização, havia assaltado e conquistado o seu tão (pretensamente) bem fortificado coração.

Ainda que isso tivesse acontecido numa outra era, seio de vivências ainda menos confortáveis e mais intranquilamente povoadas por um Gonçalo bem distinto e menos experimentado.

Permitiu que a sua mente deambulasse pelo passado, pelos momentos que para sempre haviam forjado o seu destino, irreversivelmente ditando um profundo viés na sua vida, optando por abandonar caminhos que poderia ter trilhado, mas que maturadamente abandonou, para o bem ou para o mal do seu presente e ainda nebuloso futuro.

Forçou-se a recuar para um ido e longínquo dia de um certo e inesquecível Abril, em que, no seu gabinete, enquanto jovem Procurador do Ministério Público, depois de ter digitado no computador o seu pedido de demissão para tão respeitável cargo, indolentemente afundado na vistosa e confortável cadeira aparentemente condizente com a posição que ainda ocupava, olhava de forma turva e tradutora de um incómodo desalento, para a sólida montanha de processos empilhados à sua frente, placidamente indiferentes à sua preocupação e serenamente expectantes dos seus despachos, a fim daquele gabinete serem, nem que provisoriamente, escorraçados no vaivém normal e enfanhodaramente burocrático do quotidiano de um qualquer tribunal.

Em breve, teria outras preocupações que não as ditadas por essa pilha caótica, que iria ser herdada pelo seu já aventado sucessor. Rei morto, rei posto.

Sopesava a sua atitude de abandono do cargo, ditada pela desilusão perene que o exercício de tal profissão provavelmente lhe acarretaria, procurando adivinhar o que as portas pesadas de um futuro ainda desconhecido para si, encerrariam por detrás de tão intimidatória e barroca moldura.

À época, fora despertado subitamente do seus anseios e devaneios, pelo tímido bater na porta do seu gabinete. Vociferando um mal humorado Entre!, a lânguida funcionária da Secretaria, cujo nome teimava em não recordar, avisava-o que uma advogada forasteira, em respeito a uma das tradições que imperavam nos desoladores e esquecidos tribunais de província, tal como o seu, se queria apresentar ao único representante do Ministério Público na comarca.

Era o que mais me faltava, pensou enfastiado, ao pedir que fizessem então entrar tão inoportuna e anunciada visita.

Endireitando-se na cadeira e de sobrolho carregado, ouviu a aproximação dos passos cadenciados e decididos no corredor, prenúncio da entrada resoluta no seu gabinete, de uma belíssima e altiva personagem, autêntico raio de luz na penumbra da sua escurecida sala. Foi literalmente apanhado de surpresa e para tal deslumbrante aparição, Gonçalo não se tinha minimamente preparado.

Meu Deus, era uma visão rara a que não estava acostumado no cenário por demais descoberto e previsível da pequena cidade que em breve iria desertar. Já apreciara e inclusive namorara belas mulheres, tidas predatoriamente por si, como espécimes valiosos do sexo feminino, mas aquela loira aristocraticamente voluptuosa, de pernas bem torneadas e olhar sarcástico e desafiador, só poderia ser uma outra coisa, uma derivação desconhecida e não catalogada do género humano, a avaliar pela forma como o seu organismo, incauta e incontrolavelmente, desencadeava um processo de insurreição tipicamente juvenil, da natureza daqueles há muito abandonados na sarjeta da sua longínqua e tranquila mocidade.

Não tinha nem adjectivos, nem se recordava de quaisquer superlativos, minimamente justos para humildemente descrever tão raro vislumbre de uma tão incomplacente graciosidade, magnetizante e sedutoramente elegante.
Sentia-se absolutamente arrebatado.

Medindo forças com o seu entusiasmado fascínio, um outro sentimento, de contornos mais difusos, procurava com o seu ávido e suado escalar, esforçadamente se sinalizar no amontoado babélico das emoções que, num cerco impiedoso, arrebataram a figura do Gonçalo. Um sentido de pânico, de temor ante a aproximação a algo de incompreensivelmente daninho. Deflagrado talvez por um primitivo instinto de protecção e de sobrevivência, gritando e desenfreadamente acendendo paranóicas luzes de emergência na generalidade dos corredores da sua mente subitamente amotinada. Um urro de alerta animalesco, procurando deter a decisão em se permitir cativar por aquela deusa tão segura de si, quais sirenes ecoando por uma cidade na iminência de ser bombardeada.

Gonçalo rapidamente ordenou o silêncio de tais vozes, decifrando tal urgência de cautela, como um raro assomo de cobardia ante a visão intimidatória de tal mulher.
Procurou dignamente recuperar a sua postura e munindo-se de um meio sorriso afável, levantou-se e estendeu a mão na direcção da causídica que havia invadido o seu cenário de voluntarioso desânimo e paroquiais preocupações. Retribuído o cumprimento, pôde sentir o seu aperto firme e sedoso, ao mesmo tempo que os olhos cinza metálicos que o prescrutavam, momentaneamente se alheando da sua figura, circundaram o gabinete, detendo-se e imperialmente focando uma mirada felina e glacial, no ponto onde repousavam silenciosos, os processos tendencialmente hospedeiros da roupa suja e infecta da sociedade.

Gonçalo rodeou a sua mesa e postou-se à frente dela, a uma curtíssima distância, obrigando-a a desviar a atenção para si. Aguentou o seu olhar firme, mas curioso, jogando com um silêncio estudado. Naquilo que lhe pareceu uma eternidade, depois de uma breve conversa de circunstância, da qual, em absoluto, já não se recorda, aproveitando a oportunidade com que a proximidade do horário de almoço o brindava, decidiu convidar Isabella a juntar-se a si na iminente refeição, como que temendo e procurando evitar a possibilidade de a mesma se ir subitamente embora, evaporando-se e privando-o da magnífica visão com a qual agora se deleitava.

Achando o seu início de conversa uma merda, esforçou-se por contrariar o anormalmente ritmo rápido do seu coração, que evidenciava uma sensação súbita de total insegurança. A advogada, encarou-o de uma forma algo surpreendida e divertida, escusando-se ao convite para o almoço, mas aceitando a companhia para um rápido café.
Condições imediatamente aceites por Gonçalo.

Do tal café, a sua mente apenas detinha fragmentos incoerentes e isolados. Lembra-se, sumariamente, que a conversa foi formal e trivial, servindo apenas o asfixiante intuito de ganhar tempo e evitar a inevitável ausência de tão incomum e aprazível companhia.

Os gestos refinados, ainda que não estudados, os belos traços do selecto rosto, genuinamente atraente e feminino, não evidenciavam plástica delicadeza, exalando sim um desarmante charme, pintados sobre uma patina de irradiante inteligência e sagacidade.

Recorda-se sim, do momento no qual Isabella fez questão em se levantar, afirmando estar já atrasada para um compromisso a 200 e tantos kms de distância. Num assomo de urgência ditada pela necessidade imperiosa em a rever, sabendo ser a sua derradeira oportunidade, Gonçalo aventurou-se a pedir o seu número de celular, desafiando-a para a marcação de um jantar, sob o voluntariamente inábil pretexto da merecida continuação da conversa mais ou menos filosófica, que haviam prazeirosamente mantido até então. Seguiu-se um eterno (pelo menos pareceu-lhe) silêncio, após o qual Isabella aceitou o convite, ainda que postergando a sua marcação, para um futuro convite telefónico. Gonçalo lembra-se de ter assentido, evitando um sorriso rasgado nos lábios e surpreendendo-se ante o sentimento de felicidade estúpida e infantil que contagiava o seu interior e erradicava da sua alma os deprimentes pensamentos que vinham paulatinamente tomado conta de si.

A partir deste momento, os contornos da história tornam-se mais difusos para a memória esforçada de Gonçalo. Lembra-se de ter ligado duas ou três vezes mais, na vã tentativa em marcar o jantar, mas por uma razão ou por outra, infelizmente associadas ao seu fragilizado orgulho, simplesmente não se haviam mais reencontrado, deixando-se de contatar, ambos assim enterrando e colocando uma pedra sobre um episódio, que não fazia já mais parte de suas distintas vidas.
Isabella tinha-se eclipsado da sua existência, pelo menos, até ao transcorrer da semana passada.
Quando Gonçalo recebeu uma chamada da ainda advogada, 4 anos volvidos após o último e nada auspicioso contato.

Isabella havia-lhe ligado para desejar um Bom Natal e palavra puxa palavra, Gonçalo impediu o maestro do Orgulho em conduzir a breve conversa, conseguindo a marcação do tão adiado e apregoado jantar.
O tal jantar de ontem.

Ainda não queria acreditar que, passado tanto tempo, havia-se reencontrado com essa mulher tão fugidia, com visto permanente de residência no seu imaginário e negada paixão.

A escolha de Isabella, havia recaído sobre um aprazível restaurante, na vizinhança da esplanada onde dava rédeas soltas às suas ainda tão recentes recordações. Os pratos escolhidos, no actual contexto, foram ingloriamente relegados para um pouco digno segundo plano de notoriedade, porque ofuscados pelo teor da conversa mantida entre ambos, certa e perenemente inscrita nos anais das boas recordações de sua alma.

Gonçalo forçou o ímpeto dos seus pensamentos a se esforçadamente refrearem. Uma pausa estratégica em todo o seu entusiasmo. Calma Gonçalo, dizia para si. Meu Deus, quem era aquela mulher e porque se sentia assim? A esta pergunta, não queria em definitivo responder. Melhor que a verdadeira caixa de Pandora permanecesse entreaberta e não temerariamente escancarada.

Sabia que não se atrevia a descrever as sensações vivenciadas na presença de Isabella, porque carente de palavras que fossem minimamente justas para com as sensações por si experimentadas e porque não queria avançar em tão pouco promissor território, agora que estava de regresso ao país que momentaneamente adoptara.

Além do mais, havia aprendido com as lições da história, que era ainda demasiado cedo para uma análise fria e objetiva dos acontecimentos que tanto o haviam afetado.

Sabia que não ia ligar a Isabella, nem ela o iria contactar, para que tal refeição permanecesse intocada no imaginário de ambos, não abrindo a cancela de trilhos impossibilitados de percorrerem.
Contudo, Gonçalo tinha um registo indelével dessa noite, a homenagem possível a tão notável e acarinhado evento, que de alguma forma os tinha unido, ainda que numa frágil descoberta mútua, vetada de qualquer auspicioso desenvolvimento.

Tinha escrevinhado, aquando a chegada a sua casa, ainda sob o ímpeto e euforia potenciadas pelo álcool, um genuíno e desapressado desabafo, gatafunhado no seu inseparável Moleskine.
Escreveu, não se permitindo a usufruir de qualquer pausa, não interrompendo o fluir das suas sensações e íntimos pensamentos. Quando terminou, Gonçalo recusou-se a ler as impressões trocadas com as impávidas folhas de papel e dirigiu-se de imediato para a sua cama, intimamente ansiando por uma boa e repousante noite de sono, indiferente ao maçante sobressalto que o atingia.
Hoje, logo pela manhã, Gonçalo havia colocado o seu caderno de apontamentos num dos bolsos da sua canadiana e imediatamente partido em direção à esplanada onde agora se encontrava. Bem vindo o cobertor de sossego do seu pesado sono, para minimamente aplacar a sua agitação e assim poder optar por um cenário tão especial para si, com que pudesse minimamente honrar a leitura solitária da sua virgem ode a Isabella.

Calmamente, pediu um Gin tónico e depois de brindar a sua garganta e espírito, com uns frugais goles, lentamente retirou do seu bolso o manuscrito, que havia já intimamente decidido em cirurgicamente enviar à sua futura ex-amada, na véspera da sua partida.

Prazeirosamente inspirou o cheiro desse saudoso e salgado mar lusitano, contendo tantas das lágrimas de Portugal. Sentiu-se acariciado pela suave brisa, agora marítima, permitindo-se suspirar interiormente, prenúncio da leitura que se havia decidido a iniciar, desviando assim o olhar para o texto de sua autoria, na humana companhia de um ainda que tímido acentuar das batidas do seu coração conquistado:

“Prezada Isabella,

Gostaria sim, de ter o dom de conjugar as palavras, de tal forma que uma sua descrição, fosse minimamente condizente com a minha percepção da sua natureza rara, hipnotizante, verdadeiramente digna e carismática. Mas não tenho, sinceramente, o ambicionado engenho para tal, uma vez que qualquer tentativa minha nesse sentido, não me satisfez ainda minimamente, porque para sempre presa nas franjas da inatingível realidade.

Não lho vou remeter, na íntegra, a totalidade escrita dos meus pensamentos, uma vez que entendo ser irrazoável e um pouco a despropósito, assumir tal atitude na presente actualidade. Amenizando a minha natureza impulsiva, tenho de conceder que, num plano meramente racional, privei consigo apenas em duas ocasiões. O risco, embora calculado, de vir a ser mal entendido e poderem as minhas palavras serem erroneamente interpretadas, a cada dia que passa, aumenta de proporções, bem como o seu grau de inoportunidade. A Isabella, membro com assento permanente no meu imaginário, estima e admiração pessoal, concedeu-me momentos mágicos e insondáveis de raro prazer, que entendo serem preferíveis de manter cristalizados num magnífico âmbar, para sempre resguardado no acervo particular das minhas recordações e da minha alma.

Não poderia ser promissora, a sua leitura de uma amálgama de pensamentos e percepções minhas, vertidas sob a secreta justificação de a sentir um pouco mais próxima e de egoísticamente procurar melhor entender o fascínio que sinto pela sua pessoa, desde o primeiro e inolvidável momento em que a vi.

Queria lhe transmitir, ainda assim, algumas impressões, quando muito, em respeito à nossa educativa tertúlia de ontem e para que as mesmas possam vir a integrar o seu arquivo pessoal, em lugar de destaque, ou numa qualquer inacessível e bafienta arrecadação.

Hoje, nesta aldeia global em que vivemos, uma mulher como a Isabella, olhará provavelmente e de quando em quando, para a realidade que a rodeia, para as pessoas que na maioria das vezes a circundam, com um misto de desagrado e desalento.

A Isabella já se deve ter apercebido, que não acredito nas bondades e qualidades inatas da raça humana. Deve-se tal, muito resumidamente, à minha crença na intuída percepção de sermos todos peões num jogo zoológico vastíssimo, que não se afasta das mais elementares regras do mundo animal, atinentes ao instinto básico de sobrevivência e à evidência dicotómica da realidade mandar/ser mandado. Como tal, pouco espero de quem me rodeia, uma vez que não posso, nem desejo, procurar controlar as suas naturezas inatamente imprevisíveis. Tal não revela desencanto, apenas uma assunção pragmática, directamente relacionada com as complexidades do desafiante jogo de tabuleiro cósmico, onde quotidianamente se rolam os dados da nossa vida. Tal maneira que, sempre que se cruza nos nossos insondáveis caminhos, alguém realmente extraordinário, mais admiramos e nos incontornavelmente afecta tal pessoa, não só por revelar uma rara especialidade e unicidade, muito fora do comum e do expectável, mas também por traduzir nas nossas vidas, uma gratificação pela simples ocorrência de tal fenómeno/facto. É por isso que a Isabella é para mim, uma revelação e uma descoberta, um oásis reverberante e frondoso, com o qual inauditamente me deparei, na travessia do vasto seio (predominantemente) desértico da Humanidade.

Sabe que é uma mulher belíssima, carismática, requintada e sofisticada, que procura, delimitar muito bem o terreno fronteiriço do seu mundo, do qual é, incontestavelmente, a sua Rainha.

Além do mais, corajosa. Entendo que a Isabella demonstrou tal qualidade, na ligação que me fez nas vésperas do Natal, contribuindo assim, para que novos contornos tenham revestido o nosso defunto contacto. Não sabia qual seria a minha reacção, nem nada acerca da minha vida, no momento em que efectuou tal chamada. No entanto fê-lo, porque não tinha quaisquer expectativas, porque lhe era indiferente a minha atitude e porque se deixou levar por um impulso, impelida talvez, por alguma curiosidade. Quem sabe?

Refreando os meus ímpetos, confesso que muito mais lhe poderia dizer, mas tal não se me afigura como necessário, nem oportuno, porque facilmente intuído nas “entrelinhas” de já tão longo texto.

Eu sei que não a conheço suficientemente. Não sou arrogante ao ponto de imaginar o contrário. Esta mensagem, é apenas uma colação de isolados fragmentos, que eu quis lhe transmitir, ainda que consubstanciem uma pequena gota, no oceano de uma realidade muita mais vasta e difusa, não passível de, através da escrita, ser justa e fidedignamente traduzida.

Ainda no que ao nosso jantar respeita, tenho somente e apenas, que assumir o prazer inenerrável por mim sentido, em todos os momentos vividos ao longo deste nosso último reencontro. A Isabella, que se encontrava tão genuinamente desinibida e confortável, reiteradamente me surpreendeu e encantou, suscitando em mim, um já costumeiro profundo e intenso respeito, bem como uma não disfarçada admiração. Sem dúvida que "há dias que marcam a alma e a vida da gente", apanágio seu, desde o inesquecível momento em que primeiramente a conheci.

Logo à saída do restaurante, depois da nossa despedida, com o olhar preso no arranque do seu condizente bólide, senti um inexplicável vazio, ao qual se associou rapidamente, a companhia da precoce saudade.

Não entendo a nostalgia que sinto pelos momentos vividos consigo, nem entendo, como já lhe disse, a natureza dos meus sentimentos por si. Provavelmente, também não quero entender, preferindo-os manter num limbo inexplorado e coerctivamente inanimado.

Concluindo, posso lhe afirmar que tive a felicidade em que se cruzasse novamente no meu caminho, nem que seja, por me fazer continuar a acreditar em pessoas impossíveis e em momentos da vida coloridos pela adolescente imprevisibilidade e juvenil magia.

Isabella, confiarei sempre, que a vida lhe crie as condições para a total felicidade e realização pessoal.

Sei que me irei surpreender a pensar em si, provavelmente replicando frases a esta semelhante:
"But I like to think, (s)he may have at last found some small measure of peace, that we all seek, and few of us ever find".

Onde quer que esteja, tal é um pensamento que lhe hei-de dedicar sempre, agora acompanhado pela Chuva nostálgica da Mariza, por mim eleita trilha sonora da sua estimada companhia e apaixonante personalidade.

Bjs"
Gonçalo levantou o olhar para o crepúsculo que agora o brindava, procurando não fazer juízos de valor sobre o texto que lhe havia dedicado. Demasiado formal, mas sincero, pensou. Não vou alterar uma vírgula, a fim de mais depressa encerrar este episódio que deveria estar há muito, mortalmente inanimado nas profundezas escuras e convenientes do esquecimento.

Agora sim, suspirou audivelmente.

Num lampejo de inspiração, a fim de mais digna e requintadamente fazer cair a cortina sobre o seu oprimido amor, precocemente asfixiado pelo progenitor ainda no seu tenro gatinhar, decidiu fazer acompanhar a sua derradeira missiva, do nostálgico abraço das flores por Isabella mais apreciadas.

Flores, pensava Gonçalo.
Flores...como derradeira e sentida homenagem à mulher que amava e também como um sofrido tributo fúnebre, por lugubremente adornarem o seu epitáfio a um amor que nunca chegaria a ser, enterrado que seria sob a tumba dos caminhos da vida que gostaria de ter trilhado, mas que jamais viriam a ser explorados, em nome da necessária asfixia de tão inconveniente, quanto dorida, paixão.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Bomberman em cada um de nós

Johan Huizinga, de acordo com a Wikipedia, a sempre útil Enciclopédia McDonald´s dos tempos modernos, define jogo como: "uma atividade voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana."

Ok, perfeito. E isto vem a propósito do quê, em concreto?

De uma dada confraternização por mim agradavelmente experimentada, no decurso de um recente fim de semana, algum tempo atrás. Convidado que fui para visitar a casa de uns amigos, adversários ocasionais na competição eufórica ditada pelo truco, verdadeiro ex libris sul-americano democraticamente desconhecedor de clivagens raciais e/ou sociais, decidi-me, languidamente vivenciando mais um Sábado, pautado, desta feita, pelo espírito do dolce faire niente, sem outra preocupação que não a de dar boas risadas e procurar saber se as caipirinhas se encontravam devidamente preparadas, aceitar uma proposta ao grupo genericamente formulada, de uma alternativa de entretenimento e de declarado desafio, não sob a forma de um jogo de baralho, mas sob os auspícios de uma consola, num claro upgrade tecnológico do cenário e das regras da costumeira batalha.

Desloquei-me então para a sala/arena onde iria decorrer o embate entre os jogadores/gladiadores, criteriosamente escolhidos de entre os convivas, mirando desafiadoramente a velhinha PS2 e os seus funestos comandos. Como antecâmara do duelo, fui então ouvindo atentamente a descrição do jogo seleccionado e os precisos termos do já ansiado confronto, que eu abertamente pretendia tornar humilhante para todos os meus pares.

Qual não foi a minha surpresa, quando me foi anunciado, ser o motivo condutor de tão maliciosa euforia, não uma das mais recentes maravilhas gráficas dessa gigantesca e vibrante indústria dos maléficos videogames, mas sim, um título obscuro e com origens na pré-história deste particular vício, apelidado de Bomberman Battles.

Título tão pretensiosamente infantil, fez-me pensar que o QI de inteligência a aplicar em tal jogo, deveria estar bem próximo do fundo raso de qualquer conhecida forma de inteligência referenciada.

Com algum escárnio, comentei o meu pensamento à restante assistência, tendo sido imediatamente brindado com olhares cínicos, por parte de quem era já veterano e versado nas artimanhas de tal título.

Por falar em veterano, confesso me ter surpreendido, a dado momento, a nostalgicamente me sentir mais velho do que habitualmente me poderei considerar, atento o meu notório desfazamento para com os meus idos tempos juvenis, pontualmente empolgados mediante primitivas jogatinas eletrônicas/computorizadas. Não que tivesse alguma vez despendido grande tempo em vício por mim sempre tido como inútil e sacrificador da fruição de outras experiências, bem mais interessantes e agradáveis. Mas, não deixei de lastimar a percepção da minha vetusta experiência em tais andanças. Ainda para mais, porque não queria, obviamente, perder ante os meus adversários de ocasião.

Resumidamente, o objetivo geral do aludido jogo, no seu modo multiplayer, é o de completar os níveis, colocando estrategicamente bombas nos labirintos apresentados, a fim de matar os amigos/inimigos, assumindo então o sobrevivente final na sangrenta arena povoada por quatro jogadores apenas (dois comandados por humanos e os dois restantes sacaninhas operados pela IA), o papel de olímpico e vitorioso campeão sobre a incauta e amargamente derrotada concorrência.

Vamos agora aos factos: tendo em mente a singela realidade, já apregoada, de que não aprecio minimamente perder, optei por estrategicamente evidenciar os meus méritos na segunda rodada do jogo, inspirado no frio intuito de melhor poder analisar as diversas variantes do jogo, procurando minimizar assim, a indesejada possibilidade de derrota.

Se o visual do jogo pode simpaticamente ser apelidado de simplório e jurássico, a rápida jogabilidade e o seu efeito nos litigantes, rapidamente descamba em surtos verdadeiramente hilários, à medida que vão sendo assassinados, em cenário francamente "cartoonesco", os nossos quesilentos rivais.

Depois da minha estréia nada auspiciosa, redobrei a minha concentração ao longo das restantes e encadeadas partidas com 2 minutos apenas de duração, disputadas até à última fração de segundo, tendo sido tal esforço condignamente recompensado, para satisfação da minha arrogância e frustração dos demais.

É deveras impressionante como se altera o comportamento humano, quando sob os paramentos de ávido jogador, como se a nossa personalidade e sobrevivência estivessem verdadeiramente em causa no tabuleiro, qualquer que seja o mesmo, respondendo o nosso ser, perante o desfecho da habilidade (ou ausência desta) em conseguir comandar as ridículas figurinhas que nos fielmente representam na tela, sendo servida a sobremesa de tal realidade, acompanhada “de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana”.

Homem, mamífero que pensa. Pois bem. Ainda assim, primitivo nos seus mais básicos instintos animais, habitualmente enclausurados na privativa jaula edificada pelas imperiosas regras da sociedade/reino animal do qual faz parte. Bastam duas ou três disputadas partidas, para que tais instintos quebrem as amarras do seu forçado enclausuramento, para se despudoradamente manifestarem no circo de um tosco e inofensivo jogo.

Os urros de vitória, as imprecações e os gritos de frustração ouvidos a partir da dantesca arena, poderiam confundir um terceiro e induzi-lo a pensar que se encontraria nas cercanias de uma arena romana, ou de um funesto açougue dos infernos.

Sensações tão primárias, reduzindo-se as mesmas à manifestação de alegria por parte dos vencedores e à evidente raiva e/ou desolação por parte dos vencidos.

Independentemente da plataforma e da era em que nos encontramos, o jogo será sempre uma arma municiada pela necessidade de afirmação pessoal e da nossa superioridade sobre os demais, quer sejamos seres verdadeiramente racionais, ou não.

De qualquer forma, independentemente do teor que antecede, resta-me não negligenciar a mais importante das conclusões:
Sob a batuta de tão imprevisível jogatina, o que mais releva é a saudável e agradável convivência com as pessoas verdadeiramente nossas amigas, sem dependência do motivo e cenário imponderável da reunião.

Nem mais, nem menos.

PS: dedicado ao auto-apelidado Mestre de tal jogo, GBH.

Campeões Caídos

São Paulo, último fim de semana.

A chegada do circo da Formula Indy à cidade, aliada à curiosidade e ao ineditismo de tal evento em solo brasileiro, temperada pela agitação em redor de um verdadeiro e vibrante ambiente de corrida, povoada ainda pela turba dos adeptos e aficionados, não menosprezando a proliferação das bandeiras coloridas de cada escuderia, como que se honrando as preferências medievais de cada um dos espectadores, inevitavelmente me trouxeram à memória os idos e saudosos tempos em que eu próprio, à imagem e semelhança daqueles que agora apreciava com curiosidade científica, era igualmente um ferveroso e fanático torcedor dos dois únicos desportos que, até à presente data, me cativaram, me arrancaram suspiros e imprecações, me fielmente colando ao ecrã da televisão, quando impossível a deslocação física, ansiando e regularmente consultando o calendário, prazeirosamente controlando assim a eminência dos próximos  duelos entre os gladiadores da minha preferência, mestres da suprema arte de dirigir, invejavelmente abençoados por uma forma divina de rigoroso controle sobre as suas sedutoras máquinas:
A F1 e o WRC.

Mais do que o futebol ou outros desportos verdadeiramente de equipa, aquelas duas competições, prendem-se mais com a figura individualizada do Homem, do jogador e piloto, iceberg visível de indústrias milionárias, em cujas fileiras ingressam centenas de profissionais absoluta e rigorosamente qualificados. Contudo, o que perpassa e interessa à legião de devotos, é a visibilidade do tudo por tudo de um ser no exercício solicitário da sua arte, brindando-nos com uma simbiose perfeita e egoista entre o indivíduo e o bólide por si comandado, que, a uma mera ordem, faz despertar nas entranhas da máquina, a força e brio de centenas de cavalos da mais fina estirpe, criados e acarinhados pela mais avançada engenharia moderna. 
A coragem e valentia inerentes à carreira de um piloto, estão indissociavelmente ligadas ao exercício de tal ofício, pelo que a audácia e os sentidos limados ao longo do fio de uma imperdoável navalha, facilmente aumentam a admiração dos espectadores e amantes do automobilismo por essas figuras ousadas e mortais, de cujo universo restrito, de quando em quando, surgem e se destacam aqueles com assento permanente no cobiçado clube dos campeões, consequência dos seus incontáveis feitos e hábil dedicação a uma ardente paixão, dançarinos voluntários numa imponderável coreografia com o destino e com a proximidade latente da morte.
Claro que nem todos os profissionais de tais circos canalizadores de emoções, poderão cair sob a alçada de tão benemérita descrição. Tal grau de dedicação, com ingresso garantido no panteão da imortalidade, apenas está reservado a muitos poucos, aos eleitos que homericamente se destacaram ao longo dos anais da competição automobilística, tanto pelo seu carisma, como pelos seus feitos, feitos estes, carimbados por uma verdadeira genialidade, de mãos dadas com uma magnetizante excepcionalidade.

Ao longo do caminho da minha vida, apenas admirei e me confessei adepto incondicional de um único ídolo desportivo, uma personagem controversa, ora amada, quanto odiada em igual medida, tido, de forma incontornavelmente polémica, como tendo sido o maior piloto de todos os tempos:
O saudoso Ayrton Senna da Silva.


Essa figura lendária, assistiu impotente ao brutal ceifar de sua vida, traído por uma falha mecânica da máquina cujo assento havia durante tanto tempo cobiçado. Morreu dando asas à sua paixão, exercitando-a, fruindo da liberdade do seu perene abraço à ocupação que abertamente amava. O seu lema era competir para ganhar, procurando sempre se afirmar como o melhor de entre os melhores, ciente que muitas mais conquistas poderia vir a alcançar, no decurso daquela que se idealizava como uma longa, próspera e ainda mais auspiciosa carreira.

Muito poderia eu dizer sobre esse imortal campeão, mas careço da desejável arte para devidamente exprimir a minha admiração por esse gigante da cena automobilística, fiel a si próprio e às suas mais íntimas crenças, incansável e carismático samurai das pistas, figura placidamente distante e serena no paddock, em claro contraste com as erupções aparentemente paradoxais de garra e de ferocidade com que varria os circuitos. Este meu aludido defeito, felizmente, é colmatado por tantas das obras escritas após a sua morte, que proliferam ainda nas livrarias, sendo que muitas delas foram redigidas por pessoas próximas a si, rendendo-lhe nalguns casos, belas e sentidas homenagens, pautadas pelo evidente sentimento de perda e por um orgulhoso e indisfarçado fascínio.

Para quem o tinha como piloto de eleição e assistia de forma pontualmente religiosa aos calendarizados fins de semana de corrida, procurando festejar com gaúdio as suas incontáveis façanhas, o seu desaparecimento, acarretou um sentimento de privação e de desilusão para com um desporto que se via repentinamente tolhido pela ausência de uma das suas figuras mais carismáticas, sendo que tal nuvem negra de desalento, atenta a mediocridade reinante e fastidiosa dos últimos anos, ainda hoje paira sobre tal emblemática competição.

De forma muito redutora, citarei apenas as suas duas frases mais célebres, incansavelmente repetidas ao longo da última década e meia, a título de derradeira homenagem e epitáfio definitivo:

"Correr, competir, eu levo isso no meu sangue. É parte de mim. É parte de minha vida."

"Somos feitos de emoções, basicamente todos nós estamos procurando por emoções, é apenas uma questão de encontrarmos a maneira com que devemos vivenciá-las."

Repousará certamente Ayrton Senna da Silva, na companhia privilegiada de outros pilotos cuja apresentação se me afigura desnecessária, do calibre do fleumático Jim Clark, do extravagante James Hunt ou do desmesuradamente agressivo Gilles Villeneveuve.

Como acredito que por vezes, algumas imagens valem ainda por mil palavras, seguem alguns videos celebrativos da arte desses campeões precocemente caídos.




terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Mar


A iminência de mais um fim de semana prolongado, aproxima-me do sempre almejado e jamais adiado reencontro com o Mar, ente querido ao qual devoto uma singular e dedicada paixão. Desta feita, o rendez-vous está previsto para ocorrer no litoral norte paulista, onde a calma placidez do mesmo, substitui a hipnotizante violência e arrogância salgada, do seu longínquo e inconformado congênere lusitano.

Difícil descrever a irresistível atracção pelo Mar, as horas infindas que nos dispomos a ouvir o seu rumor ou bradar, anestesiados pela sua tão particular e ritmada cadência, verdadeiro aconchego confessional e balsâmico, para a sempre atenta sensoralidade de nossa alma.

O por mim tão apreciado escritor Arturo Pérez-Reverte, produziu aquela que entendo ser a melhor definição, dessa tão voluptuosa extensão de espraiada água salgada:
"La gran ventaja del mar era que podías pasar horas mirándolo, sin pensar. Sin recordar, incluso, o haciendo que los recuerdos quedasen en la estela tan fácilmente como llegaban, cruzándose contigo sin consecuencias, igual que luces de barcos en la noche” (…) “aquello solo pasaba en el mar, porque este era cruel y egoísta como los seres humanos, y además desconocía, en su terrible simpleza, el sentido de palabras complejas como piedad, heridas o remordimientos. Quizá por eso resultaba casi analgésico. Podías reconocerte en el, o justificarte, mientras el viento, la luz, el balanceo, el rumor el agua en el casco de la embarcación, obraban el milagro de distanciar, calmándolos hasta que ya no dolían, cualquier piedad, cualquier herida y cualquier remordimiento. "
APR, La Reina del Sur

Nada poderei acrescentar.

Seguem imagens do "congênere lusitano", à semelhança daquela que serve de ilustrativo cabeçalho, ao singelo texto que antecede:


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mãe, um Feliz Aniversário!




5 de outubro de 2009,

Feriado nacional em Portugal, comemorativo da negligenciada data da implantação da República, no ido e vetusto ano de 1910.

Mas tal, para mim, nunca revelou qualquer importância, uma vez que é nesse mesmo dia do calendário gregoriano, que inevitavelmente orienta e é o cachorro guia da infalível medição temporal das nossas vidas, que hoje minha Mãe celebra o seu sexagésimo aniversário.

Não há por isso um único 5 de Outubro, que não me mova e deixe de me sensibilizar, pela simples razão do festejo aniversariante de alguém que me é tão especial e próximo, data indelevelmente associada à eternamente justa parabenização de minha Mãe, pelo intrépido decurso das suas sempre tão dignas e combativas primaveras da vida.

Não surpreendentemente, pesa-me a alma e o coração, não ter sido possível transpor a imensidão do Atlântico, vencendo assim a distância física de 9000 kms que, por ora, infelizmente nos aparta, a fim de poder estar ao seu lado, abraçando-a e beijando-a, condignamente a felicitando e agradecendo-lhe, uma e outra vez, ter tão abnegada e meritoriamente desempenhado as suas divinas funções de Mãe, criando-me em união de esforços e de amor com o meu Pai, tanto me ajudando ambos ao longo das díspares etapas da minha vida, como só os mais estóicos e dedicados progenitores, se esforçam por sempre levar a bom porto, tão difícil, incansável e indescritivelmente corajosa missão.



Mas, estou com ela em pensamento.

Como tal, algo inglório palco este, para dedicar os meus mais sentidos Parabéns à minha Mãe, que tanto Amo e para todo o sempre agradecerei, honrando-a com um lugar de perene primazia, no meu coração.

Restando-me então desejar uma Feliz comemoração dos seus jovens 60 anos,

Envolta por um meu enorme beijinho,

Ricardo



PS: Já alguém disse que “nenhuma língua é capaz de expressar a força, a beleza e a força de uma mãe”, pelo que, consciente da minha falta de talento, em procurar descrever o que as palavras dificilmente poderão abarcar e condignamente expressar, nesta sede dedico os pequenos fragmentos que se seguem:

"Homenagem às mães

Mãe, amor sincero sem exagero.
Maior que o teu amor, só o amor de Deus...
És uma árvore fecunda, que germina um novo ser.
Teus filhos, mais que frutos, são parte de você...

És capaz de doar a própria vida para salva-los.
E muito não te valorizam...
Quando crescem, de te esquecem.
São poucos, os que reconhecem...

Mas, Deus nunca lhe esquecerá.
E abençoará tudo que fizerdes aos seus...
Peço ao Pai Criador que abençoe você.
Um filho precisa ver o risco que é ser mãe...
Tudo é cirurgia, mas ela aceita com alegria.
O filho que vai nascer...

Obrigado é muito pouco, presente não é tudo.
Mas, o reconhecimento, isso! Sim, é pra valer...
Meus sinceros agradecimentos por este momento.
Maio, mês referente às mães, embora é bom lembrar...
Dia das mães, que alegria é todo dia."

J. Bernardo

*


"Minha mãe foi a mulher mais bela que jamais conheci. Todo o que sou, se o devo a minha mãe. Atribuo todos meus sucessos nesta vida ao ensino moral, intelectual e física que recebi dela."
George Washington


"O amor de mãe é o combustível que lhe permite a um ser humano fazer o impossível."
Marion C. Garretty


"O amor de uma mãe não contempla o impossível."
Paddock


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pequeno Conto - João e os Fantasmas Paulistas de 2021



João confidenciava para si mesmo: cinco horas passaram já. Cinco horas e encontro-me EXACTAMENTE no mesmo lugar. A voz irritante que cuspia informações inúteis a partir dos altifalantes do seu carro, metalicamente informava os desgraçados automobilistas que o engarrafamento da cidade, se cifrava agora, nuns inacreditáveis e aterrorizadores 440kms de fila compacta. Não dava para crer. João encontrava-se tensamente paralisado, limitando-se a permitir que as palmas das suas mãos suadas, continuassem indolentemente a afagar as pernas dormentes, geladas e fatigadas, fixando o seu transtornado olhar no infinito, como que aguardando um sinal divino advindo do metálico e carregado céu que vinha abraçando São Paulo, no penoso decurso daquela interminável tarde. Só que, não ia inesperada e miraculosamente surgir a solução de fuga para toda aquela insanidade, da qual se sentia um involuntário e contrariado figurante. A libertação da imobilidade forçada e da prisão metálica em que se encontrava, não se lhe afigurava para breve. Nem uns míseros centímetros para a frente, nem uns míseros centímetros para trás e muito menos, uns míseros centímetros para os lados. João deixara, há muito, de esquizofrenicamente se entreter com a panóplia de instrumentos e gadgets espraiados pelo habitáculo da sua bela máquina importada. Estava cansado de esganar e torturar o suave couro do volante, uma incauta vítima ante o tenaz aperto enfurecido das bem cuidadas garras do seu proprietário. Com a cabeça rigidamente encostada no eficaz apoio, pensava no carro que o abrigava, pérola do requintado consumismo que sempre o afligira. Duzentos e quarenta listrosos cavalos, verdadeiros puros sangue italianos, indiferentemente adormecidos nas entranhas do possante motor que lhes servia de estábulo. O seu reluzente e vistoso automóvel, parecia-lhe agora um objecto fútil e sem graça, um plácido anacronismo, verdadeiro monumento à vaidade e estupidez humana. À sua vaidade e à sua estupidez.

João suspirou pesadamente. Os escurecidos vidros encontravam-se fechados, como que a ingloriamente escudá-lo das agressões externas, dos delinquentes habitantes dos automóveis inferiores que o rodeavam, da (já previsível) loucura que se abatera ao longo daquela invernosa tarde paulistana. Não faltaram avisos. Até os locutores da rádio, se cansaram de procurar esgrimir argumentos ou racionalmente explicar a tragédia agora vivida, há tanto inutilmente anunciada. A pesada e crescente oneração dos bolsos dos contribuintes, associada às draconianas restrições de acesso à fatalmente congestionada malha rodoviária da cidade, bem como a inauguração recente de dez novas estações do Metrô e outras tantas e tantas débeis medidas governativas, acabaram por não impedir a consumação do Armageddon automobilístico que se abatera, de forma inédita e consumada, sobre a vibrante megalópole na qual agora vegetava. Olhava à sua volta e já não se sentia tão orgulhoso do seu bólide. Lembrou-se dos momentos em que, com a carteira bem mais aliviada, o principiou a pavoneá-lo pelas incomplacentes ruas e ruelas desta sua cidade, realizado e orgulhoso com a sua mais recente aquisição. Agora, a história era outra. Trazer uma obra prima da engenharia automobilística, para este cenário de indescritível imobilidade, era como assistir a um filme pornográfico, motivado apenas pelo seu enredo delicado. Começavam a faltar-lhe as bem vindas idéias, para eficazmente procurar matar o cada vez mais pungente e penosamente lento decorrer do tempo. Entretinha-se agora, a raivosamente amaldiçoar a cidade que adoptara, desejando no momento, extirpar a mesma, num fabuloso passe de mágica, da face nebulosa e azulínea do cada vez mais agonizante planetinha terra. Era um caso de amor/ódio, esta sui generis relação com a babilónia viciante, sedutora e desafiadora fogueira das vaidades, que assistira, num lugar de destacada primazia, ao desfilar das suas muitas e rigorosamente planeadas vitórias profissionais. Mas, ao mesmo tempo … a sua Sampa era, a cada dia que passava, palco de uma cada vez maior e indesejada frivolidade, território estéril onde se limitava a usufruir dos expedientes provindos do seu sucesso, desacompanhados da chama e o do ardor que carimbaram o seu recente passado. Vazio, estranhamente vazio, era como de há uns tempos para cá, vinha-se paulatina e amargamente sentindo. Ou frustrado. Ou desencantado. Ainda não tinha devidamente colocado tal realidade, na mesa de operações comandada pela sua analítica e ambiciosa personalidade. Sabia que não queria abrir a caixa de Pandora e deparar-se com as vísceras livremente alimentadas no seu interior, pela sua alma desprovida e calculadamente carente de sentimentos. Só que agora, não podia acenar muitas mais cenouras defronte da sua onírica e dissoluta mente. Pouco podia fazer agora, senão concentrar-se no equacionamento de alternativas ao seu inesperado enclausuramento. No momento caótico que experimentava, nem sequer se podia atrever em pensar encontrar-se com a sua jovem amante, ludicamente paquerar as suas duas voluptuosas secretárias, ou rapidamente regressar à luxuosa cobertura que habitava, na qual, a sua bela, alcoólica e inútil esposa, provavelmente se encontrava (diferente de: o esperava). Tudo lhe parecia vão e desprovido de sentido. Mais uma vez, o repelente vazio. Restava, por ora, o fugidio conflito com o seu despovoado interior. Não podia inventar manobras de diversão, inteligentemente dedicadas aos seus cada vez mais agitados e insatisfeitos sentidos, porque o cenário dantesco em que se encontrava, não dava grande margem de manobra à sua derrotada imaginação. Não lhe restava senão defrontar-se consigo mesmo, desligando o azucrinante rádio e estoicamente permitir então, o assalto dos seus mais íntimos e desagradáveis pensamentos. Não, não agora, disse João para consigo mesmo, animal acossado, torpemente procurando afastar o glacial toque do seu negado descontentamento. Preferiu, pela enésima vez, heroicamente se esforçar em focar toda a sua atenção, na imutável realidade circundante. Realmente, apenas a coloração do céu havia mudado nesta impactante pintura, elaborada por um qualquer mestre demente residente nos infernos. De um frígido cinzento, para uma coloração mais nefasta, um negro ameaçador pacientemente se espraiando por entre as ameaçadoras nuvens, languidamente apoiadas no cada vez mais indistinto céu, qual série de pancadas de Moliére, anunciando a entrada em cena da escuridão claustrofóbica e definitiva da noite. Só que a noite, raramente caminha sozinha. Hoje, certamente, não prescindiria da companhia estimada do seu vasto exército de pesadelos e divertido cardápio de infindos medos e ansiedades. Olhou então em volta, procurando concentrar-se e vislumbrar por entre os vidros enegrecidos da sua viatura, com a débil ajuda da anedótica iluminação pública, tímidos faróis de esperança no palco de um expectável desespero total. Os restantes casulos de metal sobre rodas, serenos e cabisbaixos, estendiam-se até perder de vista, igualmente imobilizados e entorpecidos, algo indiferentes à ansiedade dos condutores e passageiros que albergavam, como que desistindo das suas funções de abnegados meios de transporte, pela impossibilidade prática do exercício das suas impostas atribuições.
Entretanto, alguns homens, mulheres e crianças, contorciam-se com a impaciência, o desespero e a raiva, ante a provável constatação, que nenhuma das invenções humanas, poderia agora ajudá-los a se baterem com o pesadelo em que habitavam.

Curiosamente, para o nosso protagonista, pareciam bem iguais à sua pessoa, todos aqueles humanos que de há umas horas para cá, o cercavam, solidária e igualmente enclausurados nos seus frios caixões de metal. Caixões? Não, o efeito da noite começava já a fazer-se sentir, com o préstimo da total irritação acumulada ao longo das centenas de minutos volvidos, tipificadas por uma total, incontornável, desarmante e categórica imobilização. Apesar de o rodearem veículos de estirpe exponencialmente inferior, os seres que neles se refugiavam, não pareciam, realmente, tão diferentes de si, igualmente assoberbados pelo cansaço e não raras vezes evidenciando uma fronte carregada pela preocupação, padecendo da agitação eminentemente interna, ditada pela imprevisibilidade do desfecho de tão trágica e inédita partitura.

Alguns deles, contudo, aparentavam-lhe se encontrarem a dormir. Olhos cerrados e corpos apoiados num qualquer pedaço da particular fisionomia automóvel. Outros, amparavam a cabeça nas mãos, transportando um olhar derrotado e tal como o seu, até há momentos, fixo num qualquer ponto do infinito vazio. Outros, não quedavam quietos, como que impulsionados por uma invejável e potente bateria, quiçá animada pela ira e/ou aflição extrema. Outros, entretinham-se com os seus celulares, teclando num qualquer exercício mensagístico ou esgotando os seus créditos e minutos, atormentando um qualquer familiar ou amigo, quiçá nas mesmas circunstâncias, quiçá refastelado no aconchego do lar. Outros…outros, sei lá, a vista não abarcava tantos mais personagens assim, diminuída que estava, pela apressada escuridão que sobre tantos companheiros de infortúnio, desdenhosamente se abatia.


Pelo menos, invejava aqueles/aquelas que falavam aos seus celulares. Mais do que provavelmente, ele, João, dispunha de uma carteira infinitamente mais generosa do que a esmagadora maioria das almas que o rodeavam. Podia ter estado a falar desde o início do calvário, até agora, continuando pelos próximos 100 anos, uma ininterrupta e incansável vozearia. Mas não tinha ninguém a quem lhe apetecesse ligar. Aos seus amigos endinheirados, não adiantaria contactar, procurando algum conforto e tentando aplacar os seus contidos e desconfortáveis temores. Para quê? Serviam apenas como compinchas gladiadores na arte da competição e do desafio, alpinistas sociais inveterados, hipócritas parceiros de jogatinas e voluntariosos figurantes em surubas povoadas por modelos escolhidas a dedo e pelo alcance da carteira de cada individualidade. Não para este momento, óbvio. Muito menos poderia ligar para as suas dedicadas amantes, que o cansariam, decorridos poucos segundos, com as suas desconexas e treinadas lengalengas, debitando, nas suas vozes sensuais, mas caracteristicamente vazias, conselhos estúpidos e insinceros, tais como calma meu amor, estava a pensar em ti luz da minha vida (principalmente no meu bem estar económico, etc), etc. Da sua mulher então, nem se poderia aventar a hipótese em pensar numa tão inesperada ligação. O quê, dar agora uma de marido atormentado, assoberbado pela culpa e facadas psicológicas cumuladas, inesperadamente pretendendo se acalmar com a voz da sua parceira na alegria e na tristeza? Não, definitivamente, não. Era tarde para lançar qualquer desajeitada tentativa, fragilmente imbuída de hipotéticos propósitos de reconciliação e reconstituição dos idos tempos de felicidade conjunta, nos quais, paradoxalmente, ambos se debatiam com as mais diversas dificuldades económicas, fruto dos gastos cuidadosamente dispendidos por ambos, numa ambiciosa parceria mútua, tendente a facilitar-lhes a abertura das portas em direcção ao tão cobiçado Olimpo social, onde já há muito, tinham sido hipócrita e predatoriamente acolhidos. Tal intento, ficaria imediatamente retido na dura fronteira da incredulidade. Além do mais, por ter sido a única mulher que verdadeiramente amara, não poderia sujeitar-se a ouvir a sua voz, mais do que provavelmente, já entorpecida pelo alcóol, pelos ansiolíticos e pelos Prozacs da vida. Não ganharia nada com isso, por que nada alteraria a essência da inexistente relação de casal. Não esquecendo que o seu mítico orgulho, o impedia de capitular ante a assunção de um falhanço pessoal, dando combustível gratuito aos seus temores, relembrando-se que a sua fulgurante caminhada para o sucesso social e profissional, jamais havia deixado prisioneiros, transformando voluntariamente a sua mulher, na segunda principal vítima do apetite voraz da sua desmedida ambição. Sim, porque homem inteligente que era e cuidadoso mediador das mais infindas variáveis desse imponderável negócio apelidado de vida, sabia desde há muito, que a principal vítima de todo esse processo de edificação pessoal, havia sido ele, o magnata João, aprisionado agora, não no seu veículo, mas pelos seus fantasmas há tanto desprezados.

Não, não, não por aí. Altivez, sempre, derrota, jamais. Contudo, ecos do seu passado pobre, pretensamente afugentado pelo então vício da leitura compulsiva, fazia-o sentir-se um soldado templário solitário, apoiado na espada ensanguentada e mirando de forma desolada, os corpos inanimados e mutilados dos seus companheiros caídos. Solidão, extrema solidão. João estava desolado e prestes a se deixar abater pelo cansaço. Como nunca lhe havia acontecido. Mais enfraquecido ainda, pela consciência de que o seu intelecto, não conseguia divisar uma solução para o inferno em que se encontrava, para além da hipótese óbvia em abandonar o seu carro e iniciar uma longa caminhada em direção a sua casa, ao escritório, ou até um outro qualquer destino. Pouco interessava. Mas não lhe apetecia. Sentia que tal não resolveria em nada a sua actual condição, os seus tormentos, subitamente mais fortes que ele, podendo tal atitude vir a ser confundida com uma fuga cobarde dos seus íntimos adversários, solidamente refugiados nas trincheiras de uma realidade que iria por ele ser vencida. Para além do mais, estava frio lá fora, fora do casulo aconchegante em que se encontrava. Aqui, para já, sentia-se mais relaxado. Inspirando o cheiro emanado pelo puro couro connolly que revestia as poltronas desportivas, sentindo nos dedos o frio toque do carbono que invadia o painel de instrumentos, deleitando-se com a delicada sintonia que o unia com esta sua máquina e paixão, brinquedo que há tantos anos já, vinha intrepidamente perseguindo.

Não ia abandonar agora o seu magnífico Alfa Romeo, companheiro de infortúnio e fiel escudeiro na batalha que se avizinhava. Estava e sentia-se tão cansado. Talvez se fechasse as pálpebras, quando acordasse, nada disto teria acontecido.
Porque não?
Verifico a trava de segurança das portas e permito-me arrastar para as profundezas escuras do sono ofegante, que me aguarda logo ao virar das esquinas do meu desalento. Indolentemente me recordo da célebre citação de Montaigne, neste meu início de travessia em direcção às amargas entranhas do desconhecido:

"Quando olhas para o abismo, o abismo também olha para ti".

São Paulo, Junho de 2021