A figura placidamente sentada numa das conhecidas e badaladas esplanadas da Foz do Douro, contemplava serenamente, ainda que munido de uma indisfarçada mirada fixa e concentrada, o maravilhoso desenrolar daquele imprevisto e ruborizado ocaso, náufrago indolente nas águas gélidas e cintilantes do mar. Não qualquer mar, mas sim aquele que trazia à memória do nosso personagem, os idos e agitados tempos em que cursava Direito num quarteirão bem próximo àquele onde agora voluntariamente se refugiara e se esforçava em poder manter em ordem a esmagadora maioria dos seus tumultuados pensamentos. Estávamos em Janeiro e apesar de nos situarmos em pleno Inverno, poucas eram as nuvens que se avistavam no céu pictoriamente incendiado, ficando a cargo dos dedos gélidos de uma enganosamente suave brisa terrestre, originária dos confins do bárbaro Norte, o inevitável lembrete dos 8º C que castigavam a pele não abrigada.

Ainda que solitariamente embrenhado em profunda meditação e indiferente aos demais circundantes, a tez morena e a postura inatamente formal de Gonçalo, não disfarçavam os seus trinta e pouco anos, vividos desbragadamente, de um modo algo excêntrico e não raras vezes atribulado. Encontrava-se elegantemente envolto por discretas roupagens de marca, vestígios rarefeitos de um passado não tão distante assim, que não condiziam com a sua actual e humilhantemente fragilizada condição económica. Mas este aspecto em particular, simplesmente deixara de verdadeiramente o incomodar, não permitindo a si mesmo o deixar-se tão ingloriamente arrastar para as grutas escuras da depressão, vizinha omnipresente da sua vivência ultimamente tão tumultuada, qual vôo nocturno pilotado numa noite negra e tempestuosa, sem o indispensável socorro dos defuntos instrumentos de bordo. Mas, como dissera já Saint- Exupéry, escritor cuja biografia abertamente admirava, “a ordem não cria a vida”, pelo que, num exercício algo rebuscado de deturpada lógica, se confortava em fragilmente acreditar que o caos que recentemente se abatera sobre a sua vida, seria então um período de inestimável aprendizado e de esforçada edificação das sólidas bases para uma vivência menos rotineira e indolentemente estupidificante. Porque não? Embora duvidasse que o citado autor concordasse com tal manipulação da sua célebre citação. Enfim. Tivera que simplesmente aprender com a colheita das suas últimas vivências e sobrevivências, permitindo apenas à sua alma, agitações pouco agonizantes ante as águas escuras e tumultuosas dos riachos enegrecidos em que se vinha involuntariamente banhando.
Mas seria notório para um qualquer observador atento, que a tal mirada imperturbada de Gonçalo, não revelava tranquilidade, mas sim uma esforçada e recalcitrante tentativa em se concentrar, debilmente disfarçada pela atenta fixação do seu olhar na vasta imensidão confessional do mar agitado.
Não havia muitos dias que havia regressado a Portugal, no intuito de saborear as suas curtas férias, após uma primeira temporada de trabalho nos sufocantes trópicos de uma qualquer ex-colónia do antigo e decadente império lusitano. Regressava a casa, ao seu porto de abrigo, meio ano após a sua decisão de aceitar um obscuro cargo ultramarino, do lado de lá da costa que agora mirava e albergava a totalidade dos seus amigos e familiares.
Ainda que nos últimos dias de sua viagem, continuasse sob a influência de uma tempestade teimosamente incontrolada de emoções, quiçá próprias de quem optou por prescindir do seu costumeiro círculo de afinidades e do aconchego da sua cidade de nascença, em detrimento de uma aventura, nem para todos compreensível, do lado errado do oceano.
Mas não eram essas as emoções que agora verdadeiramente o agitavam. Eram apenas atrizes secundárias no processo que o havia levado àquela acarinhada esplanada, albergue de memórias indissociáveis de outros tempos, de um não tão remoto passado.
Gonçalo aprendera a não decidir sobre factos importantes, em cima da hora, a menos que a tal fosse obrigado.
Queria reflectir primeiramente sobre a noite passada, em amado território portuense, antes do seu agendado regresso ao país no qual agora trabalhava e para o qual se tinha temporariamente mudado, na perseguição, porventura, do seu idoso intuito em procurar vivenciar experiências além-fronteiras, incognitamente se colocando à prova no seio de novas e desafiantes culturas, levando como inevitável bagagem da sua personalidade, a esperança em conseguir aplacar a sua congénita e agitada insatisfação.
Sim, a noite passada...
Ainda sentia a força dos seus efeitos, nem que fosse pelas poucas horas dormidas e pela ressaca incomplacente que teimava em reiteradamente comprimir o seu cérebro entorpecido.
Mas, vamos aos factos.
Não era isto que incomodava Gonçalo, mas sim a aludida noite anterior, palco do reencontro com a única figura feminina que o invariavelmente perseguia no corredor das suas memórias e vívidas recordações. Chamava-se Isabella e havia jantado com a mesma, somente há algumas horas atrás.
Ela era a responsável pelo contentamento descontente do nosso personagem. Como invariavelmente se sentiu na duas únicas ocasiões em que desfrutara da presença e companhia dessa mulher tão fascinante, quanto assombradora da sua alma.
Isabella significava para si, a mais genuína personificação do pronome Se. Do que poderia ter sido e não chegou a ser. A incómoda encarnação de uma desejada variante na sua vida, nado morto que jamais veria a luz do dia.
Foi há alguns anos atrás que tinha conhecido essa esbelta e requintada aristocrata do famigerado sexo oposto que, do nada e sem qualquer prévia autorização, havia assaltado e conquistado o seu tão (pretensamente) bem fortificado coração.
Ainda que isso tivesse acontecido numa outra era, seio de vivências ainda menos confortáveis e mais intranquilamente povoadas por um Gonçalo bem distinto e menos experimentado.
Permitiu que a sua mente deambulasse pelo passado, pelos momentos que para sempre haviam forjado o seu destino, irreversivelmente ditando um profundo viés na sua vida, optando por abandonar caminhos que poderia ter trilhado, mas que maturadamente abandonou, para o bem ou para o mal do seu presente e ainda nebuloso futuro.
Forçou-se a recuar para um ido e longínquo dia de um certo e inesquecível Abril, em que, no seu gabinete, enquanto jovem Procurador do Ministério Público, depois de ter digitado no computador o seu pedido de demissão para tão respeitável cargo, indolentemente afundado na vistosa e confortável cadeira aparentemente condizente com a posição que ainda ocupava, olhava de forma turva e tradutora de um incómodo desalento, para a sólida montanha de processos empilhados à sua frente, placidamente indiferentes à sua preocupação e serenamente expectantes dos seus despachos, a fim daquele gabinete serem, nem que provisoriamente, escorraçados no vaivém normal e enfanhodaramente burocrático do quotidiano de um qualquer tribunal.
Em breve, teria outras preocupações que não as ditadas por essa pilha caótica, que iria ser herdada pelo seu já aventado sucessor. Rei morto, rei posto.
Sopesava a sua atitude de abandono do cargo, ditada pela desilusão perene que o exercício de tal profissão provavelmente lhe acarretaria, procurando adivinhar o que as portas pesadas de um futuro ainda desconhecido para si, encerrariam por detrás de tão intimidatória e barroca moldura.
À época, fora despertado subitamente do seus anseios e devaneios, pelo tímido bater na porta do seu gabinete. Vociferando um mal humorado Entre!, a lânguida funcionária da Secretaria, cujo nome teimava em não recordar, avisava-o que uma advogada forasteira, em respeito a uma das tradições que imperavam nos desoladores e esquecidos tribunais de província, tal como o seu, se queria apresentar ao único representante do Ministério Público na comarca.
Era o que mais me faltava, pensou enfastiado, ao pedir que fizessem então entrar tão inoportuna e anunciada visita.
Endireitando-se na cadeira e de sobrolho carregado, ouviu a aproximação dos passos cadenciados e decididos no corredor, prenúncio da entrada resoluta no seu gabinete, de uma belíssima e altiva personagem, autêntico raio de luz na penumbra da sua escurecida sala. Foi literalmente apanhado de surpresa e para tal deslumbrante aparição, Gonçalo não se tinha minimamente preparado.
Meu Deus, era uma visão rara a que não estava acostumado no cenário por demais descoberto e previsível da pequena cidade que em breve iria desertar. Já apreciara e inclusive namorara belas mulheres, tidas predatoriamente por si, como espécimes valiosos do sexo feminino, mas aquela loira aristocraticamente voluptuosa, de pernas bem torneadas e olhar sarcástico e desafiador, só poderia ser uma outra coisa, uma derivação desconhecida e não catalogada do género humano, a avaliar pela forma como o seu organismo, incauta e incontrolavelmente, desencadeava um processo de insurreição tipicamente juvenil, da natureza daqueles há muito abandonados na sarjeta da sua longínqua e tranquila mocidade.
Não tinha nem adjectivos, nem se recordava de quaisquer superlativos, minimamente justos para humildemente descrever tão raro vislumbre de uma tão incomplacente graciosidade, magnetizante e sedutoramente elegante.
Sentia-se absolutamente arrebatado.
Medindo forças com o seu entusiasmado fascínio, um outro sentimento, de contornos mais difusos, procurava com o seu ávido e suado escalar, esforçadamente se sinalizar no amontoado babélico das emoções que, num cerco impiedoso, arrebataram a figura do Gonçalo. Um sentido de pânico, de temor ante a aproximação a algo de incompreensivelmente daninho. Deflagrado talvez por um primitivo instinto de protecção e de sobrevivência, gritando e desenfreadamente acendendo paranóicas luzes de emergência na generalidade dos corredores da sua mente subitamente amotinada. Um urro de alerta animalesco, procurando deter a decisão em se permitir cativar por aquela deusa tão segura de si, quais sirenes ecoando por uma cidade na iminência de ser bombardeada.
Gonçalo rapidamente ordenou o silêncio de tais vozes, decifrando tal urgência de cautela, como um raro assomo de cobardia ante a visão intimidatória de tal mulher.
Procurou dignamente recuperar a sua postura e munindo-se de um meio sorriso afável, levantou-se e estendeu a mão na direcção da causídica que havia invadido o seu cenário de voluntarioso desânimo e paroquiais preocupações. Retribuído o cumprimento, pôde sentir o seu aperto firme e sedoso, ao mesmo tempo que os olhos cinza metálicos que o prescrutavam, momentaneamente se alheando da sua figura, circundaram o gabinete, detendo-se e imperialmente focando uma mirada felina e glacial, no ponto onde repousavam silenciosos, os processos tendencialmente hospedeiros da roupa suja e infecta da sociedade.
Gonçalo rodeou a sua mesa e postou-se à frente dela, a uma curtíssima distância, obrigando-a a desviar a atenção para si. Aguentou o seu olhar firme, mas curioso, jogando com um silêncio estudado. Naquilo que lhe pareceu uma eternidade, depois de uma breve conversa de circunstância, da qual, em absoluto, já não se recorda, aproveitando a oportunidade com que a proximidade do horário de almoço o brindava, decidiu convidar Isabella a juntar-se a si na iminente refeição, como que temendo e procurando evitar a possibilidade de a mesma se ir subitamente embora, evaporando-se e privando-o da magnífica visão com a qual agora se deleitava.
Achando o seu início de conversa uma merda, esforçou-se por contrariar o anormalmente ritmo rápido do seu coração, que evidenciava uma sensação súbita de total insegurança. A advogada, encarou-o de uma forma algo surpreendida e divertida, escusando-se ao convite para o almoço, mas aceitando a companhia para um rápido café.
Condições imediatamente aceites por Gonçalo.
Do tal café, a sua mente apenas detinha fragmentos incoerentes e isolados. Lembra-se, sumariamente, que a conversa foi formal e trivial, servindo apenas o asfixiante intuito de ganhar tempo e evitar a inevitável ausência de tão incomum e aprazível companhia.
Os gestos refinados, ainda que não estudados, os belos traços do selecto rosto, genuinamente atraente e feminino, não evidenciavam plástica delicadeza, exalando sim um desarmante charme, pintados sobre uma patina de irradiante inteligência e sagacidade.
Recorda-se sim, do momento no qual Isabella fez questão em se levantar, afirmando estar já atrasada para um compromisso a 200 e tantos kms de distância. Num assomo de urgência ditada pela necessidade imperiosa em a rever, sabendo ser a sua derradeira oportunidade, Gonçalo aventurou-se a pedir o seu número de celular, desafiando-a para a marcação de um jantar, sob o voluntariamente inábil pretexto da merecida continuação da conversa mais ou menos filosófica, que haviam prazeirosamente mantido até então. Seguiu-se um eterno (pelo menos pareceu-lhe) silêncio, após o qual Isabella aceitou o convite, ainda que postergando a sua marcação, para um futuro convite telefónico. Gonçalo lembra-se de ter assentido, evitando um sorriso rasgado nos lábios e surpreendendo-se ante o sentimento de felicidade estúpida e infantil que contagiava o seu interior e erradicava da sua alma os deprimentes pensamentos que vinham paulatinamente tomado conta de si.
A partir deste momento, os contornos da história tornam-se mais difusos para a memória esforçada de Gonçalo. Lembra-se de ter ligado duas ou três vezes mais, na vã tentativa em marcar o jantar, mas por uma razão ou por outra, infelizmente associadas ao seu fragilizado orgulho, simplesmente não se haviam mais reencontrado, deixando-se de contatar, ambos assim enterrando e colocando uma pedra sobre um episódio, que não fazia já mais parte de suas distintas vidas.
Isabella tinha-se eclipsado da sua existência, pelo menos, até ao transcorrer da semana passada.
Quando Gonçalo recebeu uma chamada da ainda advogada, 4 anos volvidos após o último e nada auspicioso contato.
Isabella havia-lhe ligado para desejar um Bom Natal e palavra puxa palavra, Gonçalo impediu o maestro do Orgulho em conduzir a breve conversa, conseguindo a marcação do tão adiado e apregoado jantar.
O tal jantar de ontem.
Ainda não queria acreditar que, passado tanto tempo, havia-se reencontrado com essa mulher tão fugidia, com visto permanente de residência no seu imaginário e negada paixão.
A escolha de Isabella, havia recaído sobre um aprazível restaurante, na vizinhança da esplanada onde dava rédeas soltas às suas ainda tão recentes recordações. Os pratos escolhidos, no actual contexto, foram ingloriamente relegados para um pouco digno segundo plano de notoriedade, porque ofuscados pelo teor da conversa mantida entre ambos, certa e perenemente inscrita nos anais das boas recordações de sua alma.
Gonçalo forçou o ímpeto dos seus pensamentos a se esforçadamente refrearem. Uma pausa estratégica em todo o seu entusiasmo. Calma Gonçalo, dizia para si. Meu Deus, quem era aquela mulher e porque se sentia assim? A esta pergunta, não queria em definitivo responder. Melhor que a verdadeira caixa de Pandora permanecesse entreaberta e não temerariamente escancarada.
Sabia que não se atrevia a descrever as sensações vivenciadas na presença de Isabella, porque carente de palavras que fossem minimamente justas para com as sensações por si experimentadas e porque não queria avançar em tão pouco promissor território, agora que estava de regresso ao país que momentaneamente adoptara.
Além do mais, havia aprendido com as lições da história, que era ainda demasiado cedo para uma análise fria e objetiva dos acontecimentos que tanto o haviam afetado.
Sabia que não ia ligar a Isabella, nem ela o iria contactar, para que tal refeição permanecesse intocada no imaginário de ambos, não abrindo a cancela de trilhos impossibilitados de percorrerem.
Contudo, Gonçalo tinha um registo indelével dessa noite, a homenagem possível a tão notável e acarinhado evento, que de alguma forma os tinha unido, ainda que numa frágil descoberta mútua, vetada de qualquer auspicioso desenvolvimento.
Tinha escrevinhado, aquando a chegada a sua casa, ainda sob o ímpeto e euforia potenciadas pelo álcool, um genuíno e desapressado desabafo, gatafunhado no seu inseparável Moleskine.
Escreveu, não se permitindo a usufruir de qualquer pausa, não interrompendo o fluir das suas sensações e íntimos pensamentos. Quando terminou, Gonçalo recusou-se a ler as impressões trocadas com as impávidas folhas de papel e dirigiu-se de imediato para a sua cama, intimamente ansiando por uma boa e repousante noite de sono, indiferente ao maçante sobressalto que o atingia.
Hoje, logo pela manhã, Gonçalo havia colocado o seu caderno de apontamentos num dos bolsos da sua canadiana e imediatamente partido em direção à esplanada onde agora se encontrava. Bem vindo o cobertor de sossego do seu pesado sono, para minimamente aplacar a sua agitação e assim poder optar por um cenário tão especial para si, com que pudesse minimamente honrar a leitura solitária da sua virgem ode a Isabella.
Calmamente, pediu um Gin tónico e depois de brindar a sua garganta e espírito, com uns frugais goles, lentamente retirou do seu bolso o manuscrito, que havia já intimamente decidido em cirurgicamente enviar à sua futura ex-amada, na véspera da sua partida.
Prazeirosamente inspirou o cheiro desse saudoso e salgado mar lusitano, contendo tantas das lágrimas de Portugal. Sentiu-se acariciado pela suave brisa, agora marítima, permitindo-se suspirar interiormente, prenúncio da leitura que se havia decidido a iniciar, desviando assim o olhar para o texto de sua autoria, na humana companhia de um ainda que tímido acentuar das batidas do seu coração conquistado:
“Prezada Isabella,
Gostaria sim, de ter o dom de conjugar as palavras, de tal forma que uma sua descrição, fosse minimamente condizente com a minha percepção da sua natureza rara, hipnotizante, verdadeiramente digna e carismática. Mas não tenho, sinceramente, o ambicionado engenho para tal, uma vez que qualquer tentativa minha nesse sentido, não me satisfez ainda minimamente, porque para sempre presa nas franjas da inatingível realidade.
Não lho vou remeter, na íntegra, a totalidade escrita dos meus pensamentos, uma vez que entendo ser irrazoável e um pouco a despropósito, assumir tal atitude na presente actualidade. Amenizando a minha natureza impulsiva, tenho de conceder que, num plano meramente racional, privei consigo apenas em duas ocasiões. O risco, embora calculado, de vir a ser mal entendido e poderem as minhas palavras serem erroneamente interpretadas, a cada dia que passa, aumenta de proporções, bem como o seu grau de inoportunidade. A Isabella, membro com assento permanente no meu imaginário, estima e admiração pessoal, concedeu-me momentos mágicos e insondáveis de raro prazer, que entendo serem preferíveis de manter cristalizados num magnífico âmbar, para sempre resguardado no acervo particular das minhas recordações e da minha alma.
Não poderia ser promissora, a sua leitura de uma amálgama de pensamentos e percepções minhas, vertidas sob a secreta justificação de a sentir um pouco mais próxima e de egoísticamente procurar melhor entender o fascínio que sinto pela sua pessoa, desde o primeiro e inolvidável momento em que a vi.
Queria lhe transmitir, ainda assim, algumas impressões, quando muito, em respeito à nossa educativa tertúlia de ontem e para que as mesmas possam vir a integrar o seu arquivo pessoal, em lugar de destaque, ou numa qualquer inacessível e bafienta arrecadação.
Hoje, nesta aldeia global em que vivemos, uma mulher como a Isabella, olhará provavelmente e de quando em quando, para a realidade que a rodeia, para as pessoas que na maioria das vezes a circundam, com um misto de desagrado e desalento.
A Isabella já se deve ter apercebido, que não acredito nas bondades e qualidades inatas da raça humana. Deve-se tal, muito resumidamente, à minha crença na intuída percepção de sermos todos peões num jogo zoológico vastíssimo, que não se afasta das mais elementares regras do mundo animal, atinentes ao instinto básico de sobrevivência e à evidência dicotómica da realidade mandar/ser mandado. Como tal, pouco espero de quem me rodeia, uma vez que não posso, nem desejo, procurar controlar as suas naturezas inatamente imprevisíveis. Tal não revela desencanto, apenas uma assunção pragmática, directamente relacionada com as complexidades do desafiante jogo de tabuleiro cósmico, onde quotidianamente se rolam os dados da nossa vida. Tal maneira que, sempre que se cruza nos nossos insondáveis caminhos, alguém realmente extraordinário, mais admiramos e nos incontornavelmente afecta tal pessoa, não só por revelar uma rara especialidade e unicidade, muito fora do comum e do expectável, mas também por traduzir nas nossas vidas, uma gratificação pela simples ocorrência de tal fenómeno/facto. É por isso que a Isabella é para mim, uma revelação e uma descoberta, um oásis reverberante e frondoso, com o qual inauditamente me deparei, na travessia do vasto seio (predominantemente) desértico da Humanidade.
Sabe que é uma mulher belíssima, carismática, requintada e sofisticada, que procura, delimitar muito bem o terreno fronteiriço do seu mundo, do qual é, incontestavelmente, a sua Rainha.
Além do mais, corajosa. Entendo que a Isabella demonstrou tal qualidade, na ligação que me fez nas vésperas do Natal, contribuindo assim, para que novos contornos tenham revestido o nosso defunto contacto. Não sabia qual seria a minha reacção, nem nada acerca da minha vida, no momento em que efectuou tal chamada. No entanto fê-lo, porque não tinha quaisquer expectativas, porque lhe era indiferente a minha atitude e porque se deixou levar por um impulso, impelida talvez, por alguma curiosidade. Quem sabe?
Refreando os meus ímpetos, confesso que muito mais lhe poderia dizer, mas tal não se me afigura como necessário, nem oportuno, porque facilmente intuído nas “entrelinhas” de já tão longo texto.
Eu sei que não a conheço suficientemente. Não sou arrogante ao ponto de imaginar o contrário. Esta mensagem, é apenas uma colação de isolados fragmentos, que eu quis lhe transmitir, ainda que consubstanciem uma pequena gota, no oceano de uma realidade muita mais vasta e difusa, não passível de, através da escrita, ser justa e fidedignamente traduzida.
Ainda no que ao nosso jantar respeita, tenho somente e apenas, que assumir o prazer inenerrável por mim sentido, em todos os momentos vividos ao longo deste nosso último reencontro. A Isabella, que se encontrava tão genuinamente desinibida e confortável, reiteradamente me surpreendeu e encantou, suscitando em mim, um já costumeiro profundo e intenso respeito, bem como uma não disfarçada admiração. Sem dúvida que "há dias que marcam a alma e a vida da gente", apanágio seu, desde o inesquecível momento em que primeiramente a conheci.
Logo à saída do restaurante, depois da nossa despedida, com o olhar preso no arranque do seu condizente bólide, senti um inexplicável vazio, ao qual se associou rapidamente, a companhia da precoce saudade.
Não entendo a nostalgia que sinto pelos momentos vividos consigo, nem entendo, como já lhe disse, a natureza dos meus sentimentos por si. Provavelmente, também não quero entender, preferindo-os manter num limbo inexplorado e coerctivamente inanimado.
Concluindo, posso lhe afirmar que tive a felicidade em que se cruzasse novamente no meu caminho, nem que seja, por me fazer continuar a acreditar em pessoas impossíveis e em momentos da vida coloridos pela adolescente imprevisibilidade e juvenil magia.
Isabella, confiarei sempre, que a vida lhe crie as condições para a total felicidade e realização pessoal.
Sei que me irei surpreender a pensar em si, provavelmente replicando frases a esta semelhante:
"But I like to think, (s)he may have at last found some small measure of peace, that we all seek, and few of us ever find".
Onde quer que esteja, tal é um pensamento que lhe hei-de dedicar sempre, agora acompanhado pela Chuva nostálgica da Mariza, por mim eleita trilha sonora da sua estimada companhia e apaixonante personalidade.
Bjs"
Gonçalo levantou o olhar para o crepúsculo que agora o brindava, procurando não fazer juízos de valor sobre o texto que lhe havia dedicado. Demasiado formal, mas sincero, pensou. Não vou alterar uma vírgula, a fim de mais depressa encerrar este episódio que deveria estar há muito, mortalmente inanimado nas profundezas escuras e convenientes do esquecimento.
Agora sim, suspirou audivelmente.
Num lampejo de inspiração, a fim de mais digna e requintadamente fazer cair a cortina sobre o seu oprimido amor, precocemente asfixiado pelo progenitor ainda no seu tenro gatinhar, decidiu fazer acompanhar a sua derradeira missiva, do nostálgico abraço das flores por Isabella mais apreciadas.
Flores, pensava Gonçalo.
Flores...como derradeira e sentida homenagem à mulher que amava e também como um sofrido tributo fúnebre, por lugubremente adornarem o seu epitáfio a um amor que nunca chegaria a ser, enterrado que seria sob a tumba dos caminhos da vida que gostaria de ter trilhado, mas que jamais viriam a ser explorados, em nome da necessária asfixia de tão inconveniente, quanto dorida, paixão.