terça-feira, 28 de setembro de 2010

Arte na Consolação


Há não muito tempo atrás, no ainda espreguiçar de uma certa manhã límpida e despida das nuvens que têm adornado o moribundo Inverno, introspectivamente banhado por uma chuva intermitente de tépidos e fugidios raios de luz entrecortados pela espessa folhagem das árvores que me abrigavam, encontrava-me eu no cemitério da Consolação. A minha presença inédita em tão referenciado lugar com morada cativa na memória viva da cidade, infelizmente se devia ao meu comparecimento num funeral de uma familiar de certa pessoa amiga.


Não obstante tão lamentável, ainda que razoavelmente esperado acontecimento, de alguma forma debruçado sobre o género de pensamentos que invariavelmente nos afagam e acometem no decurso de tais solenidades, acabei surpreendendo-me, nos derradeiros momentos da compungida cerimónia, a melhor atentar no cenário em que tal quadro de mágoa e ainda não interiorizada resignação, penosa e sofridamente transcorria.

O que primeiramente me chamou a atenção, foi a imensidão do lugar. O cemitério, cravado no coração de São Paulo, estende-se até perder de vista, provocatoriamente desafiando a atual e mercenária euforia de febril expansão imobiliária.

Ainda que abraçado ao longe pelos típicos arranha céus que compõem a silhueta da cidade, acabei sentindo-me um ocasional figurante num dos mais singulares espaços que havia até então conhecido nesta vibrante e eclética Sampa, ambígua e prazeirosa Babilónia, que unilateralmente e por ora adoptei, não só como meu refúgio, mas também como minha morada.

E digo figurante, porque não me encontrava sozinho.


Nunca se fica absolutamente indiferente e solitário num cemitério, pela atmosfera respeitosa e normalmente digna que acaba sempre por condicionar e admoestar o nosso espírito.


A proximidade do trato com a Morte, com embaixada permanente nas sepulturas que compõem e moldam tais espaços, encerra em si uma previsível condução dos nossos pensamentos e introspecções, em direcção à assumpção da nossa mortalidade, com uma intensidade e com um vívido desafio, que imodestamente não desejamos como parceiros costumeiros.

Mas ainda que um cemitério seja um feudo da nossa mortalidade, há cemitérios e cemitérios, à imagem e semelhança de qualquer fenómeno de nossas vidas terrenas.


E o cemitério da Consolação, não prima pela singeleza e humildes tributos das famílias aos seus saudosos entes queridos. É, de forma despudorada, uma faustosa montra da grandiosidade outrora milionária e requintada da cidade, não se coibindo em mostrar aos seus visitantes, os extraordinários jazigos/monumentos que placidamente o povoam, verdadeiras e (in)voluntárias odes ao poder monetário das elites de então, à laia de lembrete das disseminadas fortunas do presente, menos refinadas, mas mais fiéis ao cada vez mais frequente apelido da cidade, enquanto fogueira das vaidades sul americanas.

Tendo sido acordado dos meus devaneios, pelo firme abraço de uma minha amiga, despedi-me da desditosa família da idosa falecida, acabando por segui-los em direção à longínqua saída, mas paulatinamente abrandando o meu passo, até que qualquer viva alma, deixasse de servir ao meu olhar, de companhia.


Indolentemente parei num dos cruzamentos de tantas das inúmeras artérias que rasgam o intrincado mapa do espaço. O silêncio, tesouro raro na cidade que jamais aprenderá a dormir, era quase absoluto, servindo como um bálsamo para a histeria de motores e de buzinas, que pornograficamente confraternizava, nem a duas centenas de metros do sereno local onde agora me encontrava.

Optei por não abandonar de imediato tal lugar, permitindo-me apreciar a estranhamente aprazível tranquilidade que nesse espaço grassava, rodeado que estava pela memória palpável de tantos que haviam já partido, silenciosamente me alegrando pela minha saúde e ainda razoavelmente jovem idade, não obstante me recordando do incontornável desfecho do imprevisível teatro de nossas vidas.

Mas, procurando afastar tão evidentes reflexões, forcei-me a reparar que o cemitério permanecia virtualmente vazio.


Os meus olhos, principiaram a deambular novamente interessados pelas cercanias e amiúde se deparavam com magníficas esculturas, ou sob a forma de penitentes figuras solitárias ou como actores protagonistas de majestosas e intrincadas composições, muitas delas, vívidas, ainda que não raramente deterioradas, testemunhas dos génios criadores de alguns dos maiores e referenciados artistas plásticos brasileiros de sempre.

Pelo que, cedendo à tentação e não obstante os semeados avisos de proibição em fotografar, me sentindo potencialmente menos prevaricador, retirei do meu bolso, à falta de melhor equipamento, o meu aparelho fotográfico disfarçado sobre a forma de celular, principiando a bater algumas das fotos que agora adornam este artigo, optando sem grande critério, por entre um vastíssimo e rol de verdadeiras obras de arte, abnegadamente espraiadas pela vastíssima extensão deste verdadeiro e ignorado museu, habitado por um mar de virtuosas e prodigiosas sepulturas.


Ainda que qualquer um de nós precise da tranquilidade solitária para colocar os seus pensamentos em dia, jamais imaginava eu, que acabaria por permitir que os mesmos fluíssem tão serenamente num palco de tão pesado silêncio e amarga grandiosidade.


Mas a vida continua a sua inexorável marcha e depois de calmamente andar uma considerável distância sem aparente destino, começando a sentir já o calor agressivo de um não tão tímido sol, desconfortavelmente alto e arrogante, decidi-me a ir embora, tomando o caminho dos pesados portões de ferro, guardiões que escudavam este mundo de derradeiros endereços e apartados, dos desafios e da insanidade ululante que impregna a vida dos vivos.


A título de epitáfio de tal visita, encerro estas linhas, transcrevendo um excerto da publicação da Prefeitura de São Paulo, intitulada “História e Arte no cemitério da Consolação “ (José de Souza Martins) :

“O Cemitério da Consolação é um espelho em que os vivos se refletem e se encontram na memória dos mortos. Ali, no silêncio definitivo, podem os mortos ser interrogados e compreendidos no seu legado a este País e a São Paulo, estado e cidade.


Um passeio pelo Cemitério da Consolação é um passeio por dentro da nossa alma coletiva, uma visita a nós mesmos, a descoberta e a confirmação das configurações objetivas do que dá sentido ao que fazemos e ao que deixamos de fazer. Resíduo denso das significações fundamentais que têm orientado a nossa mentalidade coletiva e nossa visão de mundo nos últimos dois séculos, que é a idade de seus mortos mais antigos”.

sábado, 25 de setembro de 2010

Antti Kalhola / FOM / You Tube

No vasto mundo exploratório e semi-infinito da World Wide Web, ninguém poderá negar nos dias de hoje, com pleno discernimento, que atualmente a internet, numa das suas múltiplas facetas, pode se ter como uma grande fonte lúdica para os seus usuários, independentemente dos gostos e preferências individuais que movem cada um de nós.

É um verdadeiro mundo ao nosso alcance, que de entre uma multiplicidade de divulgação do mais puro lixo e palha sem o mais ínfimo interesse, nos revela, de quando em quando, imprevistos talentos por parte de quem se serve das suas múltiplas plataformas, no provável intuito em meritoriamente sairem do anonimato e democraticamente sobressairem pela qualidade das suas aptidões invulgares.

Será notório, para quem já passou os olhos por este blog, que sou um visceral apaixonado pelo mundo automóvel e não poderia deixar de dedicar umas curtas palavras a alguém que para mim é um ilustre e desconhecido adolescente, oriundo de um qualquer país do norte da Europa, que conseguiu, exactamente pela sua arte na edição de certos videos, a feitura de incomodar entidades tão poderosas quanto a FOM (Formula One Management), que pelos vistos, se sentiu tão hipocritamente molestada pela violação dos termos de usos de algumas imagens de sua propriedade (ainda que as mesmas proliferem e se encontrem pulverizadas por milhões de espaços na net), obrigando o You Tube a compulsoriamente encerrar a conta do tal ameaçador jovem. Mas é já demasiado tarde para que o legado seja irremediavelmente irradicado dos nossos monitores.

Na minha investigação a tal episódio, ao reparar que muitos dos videos do tal Antti Kalhola eram reiteradamente removidos dos canais do You Tube, deparei-me com um certo artigo do continental-circus.blogspot.com, intitulado Porquê a FOM tem medo de Antti Kalhola?, cujo link aqui reproduzirei, para quem sentir alguma curiosidade sobre tal polémica:

Os seus videos podem ter sido removidos do You Tube, mas não o foram inteiramente removidos da net, pelas mãos e auspícios de alguns dos seus fieis seguidores, que não poderiam deixar de publicitar e divulgar algumas autênticas obras primas de tão insuspeito amador.

Na senda do espírito democrático que me move, aliado à minha admiração de algumas das suas curtas, aqui teimosamente publicarei alguns de tão perseguidos e aparentemente funestos videos, entre os quais, uma belíssima homenagem ao precocemente falecido Ayrton Senna, tributo este, que terá estado na génese da sua citada excomunhão (visualização da 5ª parte em http://www.streetfire.net/video/ayrton-senna-5-5_2005730.htm):